domingo, 21 de dezembro de 2008

Volta de Indiana Jones arranhou reputação da série

 

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Harrison Ford e Shia LaBeouf tiram a poeira da série em novo “Indiana Jones”.

Se o robozinho Wall.E trouxe à memória o melhor do cinema de Spielberg, a volta de "Indiana Jones" aos cinemas arranhou gravemente a reputação da série. Mesmo que verossimilhança nunca tenha sido o forte das aventuras de Indy, misturar Cataratas do Iguaçu com Amazônia e arqueologia com teorias furadas de invasão alienígena não garante uma aposentadoria digna para o nosso herói. Spielberg e Lucas não precisavam de mais esse caça-níquel.

Seleção de filmes de 2008, de acordo com Diego Assis, do G1, em São Paulo

10. 'Gomorra'

Enfim, um filme de máfia contemporâneo e feito por quem mais entende do riscado: os próprios italianos. A prova de que o filme toca nas feridas certas é o prêmio colocado pela Camorra (a máfia napolitana) à cabeça de Roberto Saviano, autor do livro-reportagem que orientou o longa. Em certo sentido, é o "Cidade de Deus" italiano.

9. 'Leonera'

Bem mais do que o "Carandiru" argentino, o filme de Pablo Trapero não é só um retrato fiel dos presídios femininos da América do Sul. É também uma história intrigante sobre os sacrifícios que uma mulher é capaz de fazer em nome de seus princípios. Não fosse a surpresa de Sandra Corveloni, o prêmio de melhor atriz em Cannes poderia ter ido para Martina Guzman.

8. 'Linha de passe'

Jogador de futebol, motoboy, evangélico, empregada doméstica... Os fãs do Capitão Nascimento que me perdoem, mas poucas coisas representam mais o Brasil de hoje do que a família escalada para a nova parceria de Walter Salles e Daniela Thomas. A periferia não precisa de esmolas nem de balas; o que falta mesmo é oportunidade.

7. 'Vicky Cristina Barcelona'

Tudo bem, Woody Allen é gênio. Quem sou eu para ir contra o batalhão de fãs do brilhante - e neurótico - cineasta americano? Sabiamente, no entanto, Allen sai de cena e deixa espaço para Penélope Cruz e Javier Bardem brincarem de interpretar a si mesmos (dois sedutores de sangue latino) nesta gostosa comédia com final infeliz. Scarlett... quem?!

6. 'Trovão tropical'

À primeira vista, é só uma comédia de Ben Stiller tirando sarro dos filmes de guerra de Hollywood. Mas, da aparição-relâmpago de Tobey Maguire nos trailers falsos de abertura à dancinha de um quase irreconhecível Tom Cruise nos créditos finais, "Trovão tropical" traz performances memoráveis - destaque para um Robert Downey Jr. negro - num dos filmes mais engraçados lançados este ano.

5. 'Antes que o diabo saiba que você está morto'

Aqui o assunto é sério. Philip Seymour Hoffman, fácil, fácil, um dos melhores atores da geração atual, dá corpo à batida expressão "mataria a mãe para conseguir o que quer". Sobre um roteiro que vai se desenrolando às camadas, sob pontos de vista diferentes, o diretor veterano Sidney Lumet constrói um suspense claustrofóbico, digno de prêmios. Filmão.

4. 'Valsa com Bashir'

Talvez um dos mais subestimados filmes do ano, este documentário em animação sobre um ex-soldado isralense que perde a memória após experiências traumáticas na Guerra do Líbano nos ajuda a lembrar que, por baixo das fardas, estão apenas soldados que amam a vida e o rock'n'roll. Teve pouquíssimas sessões nas mostras e festivais, mas merecia entrar em cartaz.

3. 'Homem de Ferro'

Este não faz discurso contra as guerras, muito pelo contrário. Mesmo se dando mal graças aos armamentos que ele mesmo ajudou a fabricar, Tony Stark é um "heavy metal" dos quadrinhos que combate fogo com fogo ainda mais pesado. Mesmo trabalhando com um herói 'menor' do panteão da Marvel, a paixão de Jon Favreau pelas HQs e o carisma de Robert Downey Jr. fazem deste o melhor filme da editora/estúdio desde a franquia "Homem-Aranha".

2. 'Batman - O cavaleiro das trevas'

A enxurrada de críticos e prêmios que têm ajudado a consagrar este sexto "Batman" comprova que não se trata mais de um filme do gênero quadrinhos ou voltado apenas para fãs. Noves fora as máscaras, armaduras e batmóveis, "O cavaleiro das trevas" é um épico policial com P maiúsculo e atuações memoráveis. Existe um Coringa antes, e outro depois de Heath Ledger.

1. 'Wall.E'

Poucos filmes marcaram tanto a geração que foi criança nos anos 80 quanto "E.T. - O extraterrestre". Assim como o alien de Spielberg, o robozinho Wall.E não precisa pronunciar muitas palavras para cativar o coração dos que assistem a mais esta obra-prima da Pixar. Atenção, Oscar, a categoria animação ficou pequena para um candidato como este.

Comentários sobre o filme "Crepúsculo"

Falta pegada a ‘Crepúsculo’, diz ‘vampira’ brasileira

G1 convidou Liz Vamp para assistir ao filme que virou fenômeno nos EUA.
'Vampiros são o que a raça humana almeja: fortes, sedutores e imortais.'

Débora Miranda Do G1, em São Paulo

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“Falta ousadia, volúpia, intensidade. Em se tratando de vampiro, isso não pode ser desprezado. O vampiro é animal, tem um instintivo primitivo. Falta a pegada vampírica a ‘Crepúsculo’.” A análise é de Liz Marins, mais conhecida como Liz Vamp, filha de Zé do Caixão, atriz e entendedora de tudo o que se refere aos lendários seres que vivem à base de sangue humano.
Com a chegada de “Crepúsculo” aos cinemas brasileiros, o G1 convidou Liz Vamp para assistir ao longa-metragem e opinar sobre ele. Com orçamento relativamente baixo (cerca de US$ 37 milhões) e atores pouco conhecidos, o filme se transformou em fenômeno entre os adolescentes norte-americanos, permanecendo na lista dos mais vistos e tendo faturado incríveis US$ 35 milhões apenas em seu primeiro dia de exibição.

A história que vem mexendo com os ânimos do público teen é a do tão improvável quanto problemático romance entre a jovem Bella (Kristen Stewart) e o vampiro Edward (Robert Pattinson). Mas se está pensando em monstruosidade, esqueça. Em “Crepúsculo” é diferente: Edward é carinhoso com a amada e luta contra todos os seus instintos para não sugar seu sangue. Aliás, politicamente correto, ele nem bebe sangue de humanos, apenas de animais.
Para Liz Vamp, o doce relacionamento entre os protagonistas acabou deixando o filme “infantil”. “É um pouco infantil em alguns momentos , água com açúcar. Tem cenas românticas interessantes, tem paisagens e alguns efeitos especiais bacanas. Mas falta intensidade. O romance é bonito, mas podia ter cenas mais ‘calientes’. Não falo de sexo, mas na forma de pegar mesmo. Até os beijos dos vampiros são mais quentes.”

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Kristen Stewart e Robert Pattinson juntos em cena de ''Crepúsculo'' (Foto: Divulgação)

Por outro lado, a visão moderna e não-estereotipada dos vampiros agradou Liz Vamp. “O filme não os mostra como seres bestiais. Normalmente os vampiros são colocados como monstrinhos, mas essa tendência vem mudando. Na verdade os vampiros são tudo o que a raça humana almeja ser. São mais fortes, sedutores e imortais. E por que são vistos como monstros? Porque os humanos estão na cadeia alimentar deles.”
E mesmo assim a atriz não considera que os longas vampirescos sejam de terror. “São filmes de ficção, mistério, suspense e romance. Existem cenas de terror, mas falar de vampiros nunca é um assunto leve.” Para ela, não é surpresa ver “Crepúsculo” fazendo tanto sucesso entre o público adolescente. “Os vampiros sempre seduziram os mais jovens com os poderes que ele têm. Falar que [esse tipo de história] não tem público é mentira. A maioria dos adolescentes é mais idealista, aventureira e muito mais intensa do que os adultos.”

Mais sobre "Marley & Eu"

Por que todos amam Marley

O sucesso dos livros e filmes sobre bichos de estimação diz muito sobre nós, humanos.

Letícia Sorg

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NO CINEMA
John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) numa cena de Marley & Eu. O novo filme promete fazer o mesmo sucesso do livro

Se todos os donos de cães do Brasil decidirem assistir a Marley & Eu, faltarão assentos nas 160 salas de cinema onde o filme será exibido a partir do dia 25. O país tem a segunda maior população mundial de cães, 31 milhões, segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação. Talvez por isso o Brasil tenha sido escolhido pelo estúdio Fox para a estréia mundial da produção ao mesmo tempo que os Estados Unidos, campeões absolutos do ranking de bichos domésticos.

Não duvide do potencial do filme de David Frankel, diretor de O Diabo Veste Prada e Sex and the City, para interessar a todas essas pessoas. As peripécias do labrador da família Grogan poderiam ser as de qualquer vira-lata ou com pedigree. Marley não é um super-herói canino, como Lassie ou Rin Tin Tin (leia no fim da reportagem). É apenas “um pé-no-saco engraçado e extraordinário, que nunca entendeu muito bem como acatar uma ordem”, nas palavras de seu dono, o jornalista americano John Grogan. Mesmo assim, ao pôr no livro Marley & Eu os momentos de indisciplina e companheirismo do “pior cão do mundo”, Grogan se tornou um dos maiores êxitos de venda do planeta. No Brasil, onde foi lançado em outubro de 2005, Marley & Eu está há 110 semanas nas principais listas de livros mais vendidos do país (600 mil exemplares). A ele seguiram-se outros livros e filmes protagonizados por animais (confira no fim da reportagem). “Falar sobre animais domésticos é um ponto a favor de qualquer livro”, afirma André Castro, diretor-executivo da Ediouro Publicações, que lançou Marley no Brasil.

Grogan teve a competência de ver, antes dos outros, que seu cotidiano tinha uma história interessante para muitos. “Os animais estão ficando cada vez mais importantes”, afirma James Serpell, zoólogo e professor da Faculdade de Veterinária da Universidade da Pensilvânia. “Nos Estados Unidos pelo menos, o apoio das redes sociais tradicionais, como família e amigos, está cada vez mais fragmentado. As pessoas buscam a companhia dos animais para preencher esse vazio.”

Autor de vários livros sobre a interação entre animais e seus donos, Serpell acredita que a urbanização contribuiu para a aproximação entre cães e humanos. Na área rural, os bichos domésticos costumam passar a maior parte do tempo fora de casa. São como amigos. Nas cidades, eles dividem o mesmo teto, o tempo todo, com os donos. São como filhos. “À medida que o cão fica fisicamente mais próximo, cresce a intimidade”, diz Alexandre Rossi, zootecnista especializado em comportamento animal. “Ele deixa de ser um animal que fica no pasto das fazendas para ser praticamente um filho dentro dos apartamentos.”

Com sua fidelidade canina ao livro, o longa – com Owen Wilson e Jennifer Aniston no papel dos donos do cão – deverá agradar aos fãs. Mas há menos Marley no filme que os apaixonados por animais podem esperar. “Senti falta das caretas dele, do olhar expressivo, de suas trapalhadas”, diz um dos que já viram Marley, o crítico Rubens Ewald Filho, ele próprio dono de um labrador e de um cocker spaniel

Árvores criativas

Casal constrói árvore de Natal em forma de pudim gigante

Árvore de cerca de 6 metros de altura fica no Reino Unido.
Aposentado disse que teve a idéia por causa de sua neta.

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Um casal de Yeovil, no Reino Unido, construiu uma árvore de Natal em forma de pudim gigante, segundo o jornal inglês "Daily Mail". A árvore de cerca de 6 metros de altura foi idéia de Roger e Valerie Holley.

Aposentado, Roger disse que teve a idéia de transformar a árvore em um pudim gigante por causa de sua neta de 10 anos. "Ela tinha olhado para árvore e dito: 'se parece com um enorme pudim de Natal'", afirmou Roger.

Segundo a agência AP, a árvore em forma de pudim levou cinco anos para ficar pronta.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Interessante entrevista com a escritora Mírian Goldenberg sobre a mulher de 50 anos e seus problemas.

A mulher de 50 anos

(Luciano Trigo)

No livro Coroas, a antropóloga Mirian Goldenberg analisa o insustentável peso da idade entre as mulheres brasileiras

mirian-2.jpgcapa-coroas.jpgEstudiosa dos gêneros e do corpo em nossa cultura, a antropóloga e professora da UFRJ Mirian Goldenberg saiu a campo para investigar como a mulher brasileira de 50 anos está se enxergando. Autora de outros ensaios sobre a condição feminina na sociedade contemporânea, como A outra, Infiel e O corpo como capital, Mirian apresenta os resultados de sua pesquisa em Coroas – Corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade (Record, 224 pgs. R$28). Ela mostra, basicamente, que a situação anda difícil para as mulheres maduras: numa cultura que condiciona os afetos a aparências e  valores de mercado, e onde a juventude e a beleza são fatores determinantes da realização pessoal, elas se sentem cada vez mais excluídas e pressionadas. Entre outras conclusões preocupantes, Mirian afirma que, mesmo após todas as conquistas femininas, as mulheres casadas são mais felizes; que, quando traem, elas se colocam na posição de vítimas; e que, para muitas, a idade pode representar uma libertação dos papéis de esposa e mãe. São resquícios de valores do passado ainda entranhados no imaginário feminino – mesmo numa geração que cresceu cultuando a independência e a liberdade. Como consolo, vale lembrar que já foi pior. Na época de Balzac, a crise chegava mais cedo, aos 30.

G1: O conceito de “coroa” vem mudando com o tempo? Como se define uma coroa hoje? Idade é o único critério?

MIRIAN GOLDENBERG: Vem mudando, sim. Mas a idade ainda pesa. As mulheres começam a se sentir envelhecendo aos 40. Entram em crise, começam a fazer loucuras: plásticas, lipos, botox etc. Os homens começam a envelhecer mais tarde. Eles falam dos 60, da aposentadoria, como um grande marco do envelhecimento. Também acrescentam dois outros marcos: calvície e problemas sexuais. Então, ser coroa não é apenas uma questão de idade. É uma aceitação de posições simbolicamente desvalorizadas na sociedade: a aceitação da velhice como um momento só de perdas e pesos.

G1: O amadurecimento/envelhecimento tem implicações diferentes nos homens e mulheres? Em que sentido? A “vida útil”, em termos amorosos/sexuais, é diferente para os dois? Uma mulher com mais de 40 se sente “fora do mercado”?

MIRIAN: Simbolicamente, no Brasil, as mulheres envelhecem muito mais cedo do que os homens. Quanto mais velhas, menos chances no mercado afetivo-sexual. Por sua vez, quanto mais velho, mais o homem pode escolher no mesmo mercado. Como mostro no livro Coroas, numa cultura em que ter um marido é um verdadeiro capital - o que chamo de “capital marital” – envelhecer, para a mulher, é um momento de perdas. Elas se queixam de dois problemas: falta  de homem e decadência do corpo. Já os homens se preocupam muito menos com a aparência e mais com a perda de poder e de prestígio social. Eu encontrei três tipos de discursos femininos, que classifiquei como de falta, invisibilidade e aposentadoria do mercado afetivo-sexual. Eles podem ser vistos como uma postura de vitimização das mulheres nesta faixa etária, que apontam, predominantemente, as perdas, os medos e as dificuldades associadas ao envelhecimento. Nesse sentido, numa cultura em que o corpo é outro importante capital, talvez o mais importante de todos, o processo de envelhecimento pode ser vivido como um momento de importantes perdas, especialmente de capital físico. Há muitas mulheres que estão começando a se mutilar aos 40 ou 50 anos para atender a uma cultura que impõe isso. A cobrança aqui é diferente da que acontece na Alemanha, por exemplo. Lá, a questão é por que fazer isso com o próprio corpo. Aqui, há uma obrigação de fazer. As escolhas das mulheres brasileiras são muito mais limitadas do que as escolhas de uma mulher alemã. Ninguém diz que uma alemã é uma fracassada porque ela não se casou ou não teve filhos. É  isso que eu chamo de miséria subjetiva: aceitar a invisibilidade que é imposta à mulher que envelhece.

G1: Qual é o impacto das pressões pela realização sexual, profissional, familiar sobre as mulheres maduras?

MIRIAN: Aqui no Brasil as pressões são enormes, porque a nossa cultura cultua um determinado comportamento que combina três elementos extremamente valorizados: juventude, sexualidade e boa forma. É óbvio que, ao envelhecer, a mulher perde esses capitais tão importantes em nossa cultura. Já na cultura alemã, onde também estou pesquisando como as mulheres estão envelhecendo, os capitais mais valorizados são outros: personalidade, cultura, charme, inteligência, poder, confiança. Com a idade, as mulheres acumulam capital, em vez de perdê-lo. Por isso, envelhecer parece ser um momento de extrema satisfação para as alemãs. Aqui é um momento de extremo sofrimento para muitas mulheres, que investem no corpo e na sexualidade. As brasileiras que pesquisei trabalham ou são aposentadas. Todas são ou foram casadas, todas têm filhos, todas já cumpriram (ou ainda cumprem) o papel de esposa e mãe. Os 50 anos, para algumas mulheres, representam um momento de libertação do papel de esposa e mãe, para “ser eu mesma pela primeira vez”, uma frase recorrente no discurso delas. Enquanto emancipação foi a idéia enfatizada pelas alemãs (nenhuma me disse “sou uma mulher livre”; elas dizem: “Sou uma mulher emancipada”), liberdade foi a idéia que as brasileiras enfatizaram. Há ainda outra diferença: a emancipação das alemãs parece ser uma conquista de toda a vida, desde jovens. A liberdade das brasileiras parece ser uma conquista tardia, após elas cumprirem os papéis obrigatórios de esposa e mãe. Mesmo as que são casadas, sentem-se mais livres após os 50 para “serem elas mesmas”. Algumas redescobrem prazeres e vocações deixados de lado em função do casamento e da maternidade, retomados após os filhos estarem mais velhos.

G1: Segundo um ditado popular, só existem dois tipos de pessoas felizes: mulheres casadas e homens solteiros. As mulheres casadas são mesmo mais felizes que as solteiras? Por quê?

MIRIAN: Na minha pesquisa, aqui no Brasil, parece que sim. As casadas são aquelas que disseram ser as mais felizes. Daí eu ter criado a idéia de “capital marital”. Elas se sentem duplamente poderosas, pois, além de terem um marido, acreditam que são mais fortes, independentes e interessantes do que ele - mesmo quando ele ganha muito mais e é mais bem sucedido profissionalmente do que elas. Num mercado em que os homens são escassos, principalmente na faixa etária pesquisada, as casadas se sentem poderosas por terem um produto raro e extremamente valorizado pelas mulheres brasileiras - e, também, por se sentirem superiores e imprescindíveis para os seus maridos. É possível constatar que, além de o corpo ser um capital importantíssimo no Brasil, o marido também é um capital, talvez até mais fundamental do que o corpo, nessa faixa etária. O que as brasileiras mais valorizaram, em seus depoimentos, é o fato de terem um casamento sólido e satisfatório, de muitos anos. A existência desse tipo de casamento foi apontada como o principal motivo de felicidade. Já a sua ausência foi motivo de infindáveis queixas e lamúrias. Num dos grupos realizados, uma mulher magra, bonita e com a aparência muito jovem disse que sentia inveja de outra pesquisada, por ela ter um casamento estável e feliz. O interessante é que a invejada era gorda e com uma aparência muito mais velha do que a invejosa. A magra disse: “Eu tive e tenho muitos namorados, mas não consigo ter um companheiro, um marido. Senti inveja quando você falou do seu casamento de 30 anos, porque eu nunca consegui ter isso. E nunca mais vou conseguir ter”.

G1: A infidelidade feminina está aumentando? E a masculina? Por quê? Isso é bom ou ruim?

MIRIAN: Um dado interessante da minha pesquisa é o diferente posicionamento de homens e mulheres no que diz respeito à traição. Os homens se justificam por terem uma “natureza”, uma “essência” propensa à infidelidade. Já as mulheres responsabilizam seus maridos ou namorados por elas serem infiéis. Homens dizem trair por “atração física”, “vontade”, “tesão”, “oportunidade”, “aconteceu”, “galinhagem”, “é um hobby”, “testicocefalia”, “é da natureza masculina”, “instinto”. Já nas respostas femininas encontrei “insatisfação com o parceiro”, “falta de amor”, “para levantar a auto-estima”, “vingança”, além de um número significativo de mulheres que traem porque não se sentem mais desejadas pelos parceiros. Apesar de muitos comportamentos masculinos e femininos não estarem mais tão distantes, inclusive no que diz respeito à traição - como mostram os dados da minha pesquisa, em que 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem sido infiéis – os discursos femininos e masculinos são extremamente diferentes. Pode-se notar, ao analisar esses dados, que os homens justificam suas traições por meio de uma suposta essência ou instinto masculino. Já as mulheres infiéis dizem que seus parceiros, com suas faltas e galinhagens, são os verdadeiros responsáveis por suas relações extraconjugais. Ou seja, no discurso dos pesquisados, a culpa da traição é sempre do homem: seja por sua natureza incontrolável, seja por seus inúmeros defeitos (e faltas) no que diz respeito ao relacionamento. Se é inquestionável que, nas últimas décadas, houve uma revolução nas relações conjugais, na questão da infidelidade ainda parece existir um “privilégio” masculino, isto é, ele é o único que se percebe como sujeito da traição. Enquanto a mulher, mesmo quando trai, continua se percebendo como uma vítima, que no máximo reage à dominação masculina. Os comportamentos sexuais podem ter mudado, tendendo a uma maior igualdade, mas o discurso sobre o sexo ainda resiste às mudanças. Os discursos estabelecem e reafirmam as diferenças de gênero, até mesmo quando o comportamento parece recusar essas diferenças. Não estou afirmando que não existem diferenças no comportamento sexual feminino e masculino, mas, como sugerem os dados da minha pesquisa, elas não são tão grandes assim. O que quero propor é que a linguagem da diferença não só reforça as diferenças existentes, como parece ampliar significativamente o sentido de diferenças que não são tão grandes como parecem.

G1: Apesar de todos os avanços nas conquistas femininas, a cada geração fica mais explícito o uso da sedução e do corpo feminino como moeda, e muitas mulheres viram a seu favor a condição de objetos e mercadorias. Como você analisa isso?

MIRIAN: Os valores mudaram muito nas últimas décadas, mas, com certeza, ainda não tanto a ponto de a brasileira deixar de investir no corpo e na sexualidade como verdadeiros capitais em diferentes mercados - afetivo, profissional, sexual etc. Ainda é enorme essa dependência do homem que as brasileiras têm. Sem dúvida, a mudança de valores pode ajudar a conquistar uma velhice melhor. Primeiro, a mulher vai investir em outros capitais que vão transformar a velhice, como capital cultural, capital científico, ou em outros relacionamentos que não sejam só com o homem. Tudo isso pode alimentar um projeto de uma velhice melhor. Quando a mulher investe só em corpo e em sexualidade, todos os projetos passam pelo homem e pelas cirurgias plásticas. Aqui não encontro mulheres que não tenham feito cirurgias plásticas, que é o principal investimento no corpo. As alemãs investem em viagens, em leituras, investem até nos momentos de solidão, em casas gostosas de viver, ou seja, elas têm muitos outros prazeres. E foram acostumadas a contar com elas mesmas. Aqui as mulheres de 50 anos me dizem que agora pela primeira vez são mais livres. As alemãs me dizem: mas elas precisam esperar até os 50 para serem livres?

Livros

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Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra. Martins, 128 pgs. R$26,30

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque tinha perdido sua boneca. Para acalmar a garotinha, inventou uma história: a boneca não estava perdida, mas viajara, e ele, um “carteiro de bonecas”, tinha uma carta em seu poder, que lhe entregaria no dia seguinte. Naquela noite, ele escreveu a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo. Inspirado por esta história pouco conhecida de Kafka, contada por Dora Diamant, companheira do escritor na época, Jordi Sierra i Fabra recria as cartas nunca encontradas e que constituem um dos mistérios mais belos da narrativa do século XX.

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Angela e o menino Jesus, de Frank McCourt. Intrínseca, 40 pgs. R$19,90

Uma fábula natalina que traz uma lição de ternura. Ângela é uma garotinha de 6 anos que fica com pena do Menino Jesus ao vê-lo no altar da igreja de São José, na cidade de Limerick, na Irlanda, onde mora. As noites de dezembro são úmidas e frias, e a igreja é escura. A mãe do Menino Jesus não tem nem um cobertor para cobri-lo. O bebê precisa da ajuda de Ângela, mesmo que ela não tenha autorização para chegar perto do altar, muito menos sozinha. Repleto do espírito e das aventuras do romance As cinzas de Ângela, em que o autor narrou suas memórias de menino, Ângela e o Menino Jesus é uma história de família com uma mensagem universal.

 

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Animais sem zoológico, de Gianni Rodari. Martins Fontes, 31 pgs. R$29,80

Um gato malabarista quis puxar o tapete de seus colegas elefantes e se deu mal; as tartarugas organizaram uma corrida de bicicleta mas, decididamente, correr não era seu forte; um cavalo que sabia escrever acabou dando com a língua nos dentes… Estes e outros personagens mostram que às vezes bicho até parece gente… Gianni Rodari é conhecido por suas fábulas saborosas e cheias de ironia. Sem nenhuma mensagem de tom moralista, ele faz uma crítica inteligente das frivolidades, da lei da vantagem, da exploração do trabalho e de outras práticas e valores característicos da sociedade atual. O livro tem ilustrações de Anna Laura Cantone, artista italiana contemporânea.