terça-feira, 10 de agosto de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Material retirado do site Jornal de Poesia sobre Bruno Tolentino: entrevista concedida à revista Veja, em 1996.

Quero o país de volta

O poeta que passou trinta anos na Europa se diz horrorizado com o baixo nível, acha que o país regrediu e parte para a briga

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Char. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil As Horas de Katharina, e no fim do ano passado mais dois, Os Deuses de Hoje e Os Sapos de Ontem - todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.

Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador José Guilherme Merquior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:

VEJA - Por que tantas brigas ao mesmo tempo?
TOLENTINO - Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.
VEJA - Por que não?
TOLENTINO - Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.
VEJA - Qual o problema?
TOLENTINO - Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.
VEJA - Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?
TOLENTINO - Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.
VEJA - O que você tem contra a música popular?
TOLENTINO - Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?
VEJA - O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.
TOLENTINO - Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.
VEJA - Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?
TOLENTINO - Não sabem inglês, nem alemão, nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase "ele tem um pássaro", que é literal, mas que em alemão quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.
VEJA - Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?
TOLENTINO - Na República das Letras ainda estamos à espera das diretas já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, que em Lilliput só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: "Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem". Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: "Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e..." É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?
VEJA - Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?
TOLENTINO - O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e - como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? - o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.
VEJA - Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?
TOLENTINO - A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.
VEJA - Caramba... Não sobra nenhum crítico brasileiro?
TOLENTINO - Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim...
VEJA - O senhor também não sobra?
TOLENTINO - Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos crititicos e poetômanos. Infelizmente ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.
VEJA - Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?
TOLENTINO - Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.
VEJA - O senhor poderia dar exemplos disso?
TOLENTINO - Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. "Faz a melhor imitação de poesia que já li", dizia. Parecia piada mas não era.
VEJA - O senhor acha que a imitação é ruim?
TOLENTINO - A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.
VEJA - Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?
TOLENTINO - Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.
VEJA - Então as universidades não servem para nada?
TOLENTINO - A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.
VEJA - O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?
TOLENTINO - O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil "ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas", como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos "grandes centros" produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o "rigor" (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.
VEJA - Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado...
TOLENTINO - É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.
VEJA - Tem a ver com o quê?
TOLENTINO - A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.
VEJA - O senhor não está exagerando, sendo duro demais?
TOLENTINO - Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.
VEJA - Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país...
TOLENTINO - O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.
VEJA - Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?
TOLENTINO - Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.

Um caso a se pensar: Por que votar em outro candidato, mesmo sabendo que suas chances são quase nenhumas? Raphael Tsavkko Garcia responde (e muito bem) a esta pergunta em seu blog “amálgama”.

 

-- Plínio Soares de Arruda Sampaio --
Por que votarei em Plínio? Indo direto ao ponto? Por coerência. Minha e do candidato.
Por Plínio contestar a ordem vigente e buscar uma alternativa ao jogo da direita.
O homem e o candidato
São décadas de defesa dos movimentos sociais, das classes trabalhadoras, enfim, do verdadeiro povo brasileiro. Plínio representa anos de luta social, pelos direitos humanos e pela dignidade de todos e todas.
Da história de apoio ao MST, à Liga campesina, passando pela defesa da Constituição Cidadã, até a defesa do aborto, dos direitos humanos e do povo brasileiro, Plínio de Arruda, do alto de seus 80 anos de idade, demonstra a vitalidade de quem sabe ser justa sua luta.
De uma origem rica, filho de produtores de café, Plínio foi pouco a pouco se aproximando das posições de esquerda em seus 60 anos de militância. Das juventudes católicas, passando pelo Partido Democrata Cristão, Plínio foi cada vez mais se aproximando do povo e de seus anseios. O socialismo foi um caminho natural que, até hoje, trilha como poucos.
Diferentemente de outros políticos que respeitam apenas a si próprios e dificilmente se subordinam à  vontade coletiva, passando por cima de seus partidos e de sua base e chegando ao grotesco de fazer comparações absurdas com teor eleitoreiro, ou que procuram mascarar suas posições através de propostas escapistas e sem sentido, Plínio respeita sua base, respeita as bandeiras históricas do movimento social e passa até mesmo por cima de seus próprios preconceitos e visões pré-concebidas, se mostrando não apenas um grande ser humano e político, mas um estadista, alguém que passa por cima até mesmo de suas posições pessoais pelo bem de todo o povo.
Posição de Plínio sobre o Aborto:
“Apóio o movimento em favor da descriminalização do aborto porque, evidentemente, a lei atual demonstrou ser, não apenas ineficaz, mas claramente perniciosa, uma vez que obriga as mulheres a recorrer a pessoas despreparadas e inescrupulosas para interromper uma gravidez indesejada.”
Em entrevista ao R7, ele é ainda mais claro, separando suas opiniões pessoais do que o Brasil efetivamente precisa:
“Em assuntos polêmicos recorrentes nas sabatinas, Plínio se mostrou favorável à união homoafetiva no Brasil, justificando sua posição no direito de vida civil em comum que pessoas do mesmo sexo têm. Sobre o aborto, disse ser uma questão social grave que precisa ser analisada como política pública.”
Plínio quer legalizar o aborto, ao mesmo tempo em que monta uma estrutura de saúde para avaliar e orientar as pessoas, algo que nenhum outro candidato ou partido jamais pensou ou cogitou.
Tão importante quanto é saber, também, que ele é o único candidato a defender uma punição – exemplar – aos torturadores e criminosos, civis e militares, da Ditadura Militar.
A mídia e os “nanicos”
Católico, Plínio consegue, diferentemente de outros, manter para si suas posições e opiniões religiosas. Pensa em governar para todos e não para si e para grupos de interesse. Defende as causas do povo e não as suas próprias e, exatamente por isto, é escondido pela mídia.
Ao tocar em feridas profundas, acaba por desagradar a importantes e influentes setores. E sofre as consequências.
Nas pesquisas, Plínio aparece com menos de 1%. Isto quando aparece. Até o momento boa parte das pesquisas são feitas com apenas o nome dos três primeiros colocados. Os demais são relegados ao ostracismo.
Na maioria das pesquisas os “nanicos” nem aparecem, ou sua votação oscila de forma incongruente. A mídia tem bombardeado o público com a ideia de que só existem 3 candidatos. Como o povo saberá quem são os demais?
Neste cenário, até mesmo o Rui Costa Pimenta pode aparecer como quarta força, basta que a pesquisa seja feita na esquina da sede do PCO!
Pelo peso do PSOL, pela história do Plínio e pela militância, fica claro que, começando a campanha, os números começarão a ter alguma relevância e sua candidatura crescerá. Por enquanto é má fé acreditar que piadas prontas como Eymael ou desconhecidos como Ciro Moura tenham qualquer votação relevante e, especialmente, maior que a do Plínio.
Plínio foi criminosamente excluído do Roda Viva – existe inclusive um abaixo-assinado pela sua participação – e sequer a TV Brasil, pública, se incomodou de convidá-lo para entrevistas. Debates? Fazem de tudo para excluí-lo, enquanto tentam construir um cenário fictício perpetuando a ideia de que existem apenas 3 projetos, o do PT, o do DemoTucanato e o da Criacionista, e nenhuma alternativa viável. Ao menos, nenhuma viável para os que detém o poder.
As posições
Dentre as declarações de Plínio aparecem a defesa dos movimentos das mulheres; da revisão da Lei da Anistia; da reestatização da Vale, que foi entregue a preço de banana por FHC; a paralização do processo de licitação e o abandono da ideia estúpida da construção da usina de Belo Monte, em defesa dos povos indígenas e da biodiversidade local; e a defesa do EcoSocialismo e não de um EcoCapitalismo neodesenvolvimentista tão em moda entre os demais candidatos.
O que Plínio disse sobre a Anistia:
“O ex-deputado federal Plínio de Arruda Sampaio, que permaneceu 12 anos exilado no Chile e nos Estados Unidos durante a ditadura militar (1964-1985), diz acreditar que crimes bárbaros, como sequestros e torturas, não deveriam ser anistiados como decidiu nesta quinta-feira (29) o STF (Supremo Tribunal Federal). – A Lei da Anistia ocorreu em nome da harmonia política da época e os líderes já entregaram o poder, mas não existe anistia para sequestros e torturas. Os bárbaros crimes cometidos não podem ser anistiados.”
A reforma agrária e a proibição de qualquer forma de transgênico são bandeiras das mais relevantes para o candidato do PSOL, que tem um longo histórico de militância nesta área. A defesa do meio ambiente e da biodiversidade não poderiam ser esquecidas pelo candidato socialista, que constantemente critica a criminalização dos movimentos sociais – que, segundo alguns, colocam-se contra o progresso ao tentarem conseguir melhor qualidade de vida para toda a população.
Seguindo os anseios da população e dos movimentos sociais, Plínio defende com unhas e dentes a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e a taxação de grandes fortunas, sendo, por isto, considerado radical. Ao se apresentar como o candidato contra o sistema, é considerado radical, sonhador e, até mesmo, perigoso pelos setores reacionários.
Sua defesa intransigente da soberania do país e do povo brasileiro o fazem ser tachado de radical por aqueles que querem criar uma falsa polarização e por quem tem medo do único candidato com coragem de pôr o dedo nas mais diversas feridas abertas deste país.
Querem excluí-lo dos debates, das entrevistas a programas como o RodaViva e, para isto, usam pesquisas de qualidade suspeita para chamá-lo de “nanico”, de “irrelevante”. A mídia tem medo de sua defesa da democratização dos meios de comunicação, do fim dos monopólios midiáticos, da defesa do software livre e das rádios comunitárias e meios de comunicação alternativos que possam levar informação de qualidade em oposição ao amálgama de mentiras propagado pela mídia de massa.
Felizmente, após o debate na Band, a mídia parece ter acordado, ou melhor, notado que não adianta excluí-lo. Forçosamente convidado – a lei eleitoral exige -, Plínio deu um show, conseguindo apoiadores e admiradores, dando um banho nos demais candidatos. Desde chamar a Marina de “EcoCapitalista” e Serra de “Hipocondríaco”, até apresentar um programa socialista para o país e, com bom humor e ironia, desmontar os demais discursos.
Conclusão
O voto em Plínio não deve ser encarado como um mero voto de protesto contra a falsa polarização da disputa, mas como um voto consciente numa alternativa real e em construção, numa opção política diferente, que resgata aquilo que o PT abandonou em nome da “governabilidade” e resgata os anseios dos movimentos sociais e populares.
Votar em Plínio é defender o antigo PT, o partido de massas, de luta. É casar antigas bandeiras, ainda válidas, com um partido novo, em formação.
Plínio defende o que o PT costumava defender. Porque com ele é irreal e com o PT era a utopia de todo militante?
A tática usada pela direita é atacar suas ideias, tachá-lo de radical. A da esquerda, infelizmente, não é muito diferente. Acusam-no de fazer o jogo da direita. Mas como?
Esse papo de “jogo da direita” é realmente uma mordaça. Alguns tentam criar o medo da vitória do Serra para tentar calar a voz dissidente. Plínio toca em pontos fundamentais, como a reforma agrária, e ninguém pode respondê-lo, porque ninguém a fez ou tem propostas para fazê-la. Então novamente entra o papo de ajudar a direita. Oras, se o PT em oito anos não se interessou em efetivamente fazer uma profunda reforma agrária no país, por que questionar este fato – como faz o MST constantemente – seria jogar com a direita?
A verdade é de direita? Eu acho que não. Então, realmente, eu não entendo.
Plínio mostra que existe uma alternativa. Em uma sociedade conservadora como a nossa, sabemos que não será eleito, mas o crescimento de sua campanha forçaria a inclusão do PSOL na mesa de negociações. Com peso e força, o PSOL poderia pleitear junto ao PT, poderia pressionar e ter peso para isso. Seria uma chance de trazer o PT, ou o governo, para a esquerda.
Plínio significa, enfim, a mudança real, para melhor, do país. À caminho do socialismo.

domingo, 8 de agosto de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Debate motra Dilma bem, Serra tentando, Marina quase chegando lá e Plínio como o único inovador. Ainda vou de Dilma!

Notas sobre o debate da Band

por André Egg

Na noite de ontem, 4 candidatos a presidente se encontraram diante de um punhado de telespectadores para o debate promovido pela TV Band. De princípio já achei ótimo que o Plínio de Arruda Sampaio foi convidado. Afinal, era um tremendo desrespeito um partido do tamanho do PSOL, com presença relevante no cenário federal e em vários estados, e com ótima votação nas eleições de 2006, ficar completamente omitido pela cobertura da imprensa.

E Plínio teve uma ótima participação, dentro do que se podia esperar dele. Foi o único a destoar da linha política dos outros três: insistiu na necessidade de ruptura com a estrutura do capitalismo para superar as imensas desigualdades no Brasil. Ele foi o elemento de utopia política num debate morno. O único problema é que parece com o PT dos anos 80: críticas pertinentes ao modelo excludente do capitalismo, mas nenhuma ideia viável de como sair disso. As propostas só falaram em “vontade política”. Ora, voluntarismo bobo, que não resolve nada, como já aprendemos. Plínio deve crescer, mas precisa superar as posições incipientes para se tornar um competidor relevante. As únicas propostas concretas que apresentou podem ser plataforma para um candidato a deputado federal: redução de jornada de trabalho e limitação da propriedade rural ao tamanho máximo de 1000 hectares.

Os outros 3 candidatos estiveram o tempo todo posando.
Serra tentou parecer simpático, coisa que me parece impossível. No que pôde, tentou atacar Dilma. O problema dos baixos investimentos públicos é real, e esse foi seu assunto preferido (fora umas pegadinhas idiotas sobre APAE e mutirão de cirurgias no SUS). Seria um bom mote para Serra, se o governo do PSDB tivesse feito melhor, tanto nos anos de FHC presidente (1995-2002) como nos de Serra governador de São Paulo (2007-2010). Acusações de aparelhamento do Estado pelo PT, mencionando os Correios, foram bem respondidas por Dilma: Serra também pratica isso muito em São Paulo, como se sabe.
Dilma esteve pouco à vontade. Passou metade do debate se atrapalhando com o tempo das respostas, mas aos poucos pegou o jeito da coisa. Demonstrou que aprende rápido. Ao contrário do que se fala dela, me pareceu bem na televisão, fala com clareza, tem algum carisma, é bem informada e raciocina rápido. Seu visual está perfeito (cabelo, roupa e maquiagem) – ponto para sua equipe de campanha. Conseguiu transmitir um bom equilíbrio entre sobriedade e simpatia, entre eficiência e feminilidade. Tecnicamente teve sempre boas respostas. Insistiu no sucesso dos programas do governo Lula, fez propostas mais claras apenas para a área da saúde: ampliação do SUS com a construção de poli-clínicas de especialistas e atendimento emergencial 24 horas. A proposta de acabar com a progressão continuada, também já feita por Mercadante para São Paulo, é demagogia pura. Não melhora em nada a educação, mas deve ganhar votos entre o eleitorado conservador.
Aliás, Dilma me pareceu, neste debate, ter clareza de estar se apresentando para um público mais escolarizado e de maior renda, das regiões Sul e Sudeste. É o público que ela precisa conquistar para ganhar no primeiro turno. Entre os pobres, os menos escolarizados e na região que vai de Minas/Rio para o norte, ela já é rainha, e Serra não está dando nenhum passo para melhorar sua posição. Este público deve ser o alvo estudado pela equipe de campanha, porque Dilma não insistiu na sua ligação com Lula, quase não mencionou esse fator. Procurou passar uma visão de boa administradora, defendeu as políticas do atual governo e propôs ampliações. Está cumprindo um script traçado corretamente por seus estrategistas.

Marina tem um ótimo pessoal de campanha para internet, ótima equipe técnica. Boas propostas, e um partido político que pode ser uma importante via de oxigenação na vida política nacional, reinserindo um horizonte utópico, mais século 21, menos marxismo soviético, englobando as demandas de justiça social com liberdades civis e econômicas (de mercado). Mas é uma candidata de presença pessoal frágil. Apresenta-se de coque nos cabelos (humildade? zelo religioso?), não usa brincos, usa um colar indígena, maquiada somente para as luzes da TV. Preocupada em manter uma postura de respeito aos demais candidatos, não conseguiu propor nada além de uma vaga noção de que deve-se superar a polarização PT-PSDB, avaliar corretamente os ganhos dos governos passados e avançar em melhorias que ainda faltam. Única proposta concreta foi o aumento dos recursos aplicados em educação para 7% do PIB – o que não resolve nada sem uma política mais clara de aplicação.
Em geral, avalio que o modelo de organização do debate foi ruim. Perguntas de candidato para candidato dominaram a cena. Perguntas feitas por jornalistas (ou até pelo público, por que não?) fariam um debate mais incisivo, mais vivo. Somente em um dos cinco blocos isso aconteceu, e Joelmir Beting fez praticamente as únicas perguntas incômodas da noite. Perguntou a Dilma como reduzir os juros escorchantes e os impostos sobre consumo e produção, que prejudicam a população mais pobre. Dilma deu resposta tecnicamente correta, sem ousadia política. Redução da dívida pública praticada no governo Lula permite reduzir os juros com segurança e paulatinamente, como vem sendo feito. Em seu comentário ao tema, Serra apenas propôs reduzir os juros (sem dizer como) e instituir a restituição de parte do imposto pago pelo consumidor como se faz em São Paulo (esqueceu de avisar que os impostos federais não permitem a manobra, que só funciona com ICMS).

O apresentador, Boechat, reclamou em seu tuíter que o debate foi morno. E foi mesmo. Por culpa mais do modelo da Band que da intenção dos candidatos. Perguntas temáticas com tempo de resposta iguais para todos os candidatos (sorteada a ordem das respostas) seria um modelo mais dinâmico, permitindo confrontar propostas diferentes para o mesmo problema. Não foi o que se viu. Saiu perdendo o eleitor, pois os candidatos não se deram a conhecer. Muito tempo de conversa para pouco resultado.

Acho que foram muito mais úteis as entrevistas para a rádio CBN, dadas antes da copa do mundo, que comentei em meu blog (Serra, Dilma e Marina). Mas a CBN não convidou Plínio, o que é compreensível, pois é o único candidato que confronta as posições de mercado defendidas vigorosamente pela emissora. No caso da CBN, parece que ela está mais em campanha que os candidatos…

Pesando tudo na balança, a vitória no debate ficou para Dilma. Como indicam as pesquisas (Vox Populi e Datafolha de julho), se os outros candidatos não crescerem muito na reta final ela surfa na popularidade de Lula e ganha no primeiro turno. Para horror das velhinhas ricas de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Nicky

Lá pelos anos de 1995 ou 1996, começou nossa amizade.

Eu me lembro que, dias antes de te comprar por algo em torno de 50 (não sei mais se cruzeiro cruzado ou coisa que o valha) nossa casa foi meio que assaltada. Algum “meliante” pulou o muro da frente e carregou uma rede que deixávamos pendurada na varanda. Pensei então em comprar um cachorro para tomar conta do terreno. Na escola onde eu trabalhava, o Paulo (um professor amigo meu) me disse que sua cadela Flora havia tido filhotes. Combinei de ficar com um. E assim, meu amigo, você veio para nossa casa.

Daquele dia distante até hoje, já se vão mais ou menos uns quinze anos. E nestes quinze anos, sempre contei com seu carinho e seu cuidado. Nossa casa nunca mais foi nem de longe assaltada. E sempre que abri a porta da cozinha, te encontrei a me esperar, me dando sempre provas de carinho e fidelidade.

Você foi o companheiro dedicado de minha Baby também, e com ela, foi papai de doze lindos filhotinhos. Nunca esquecerei tanta alegria.

Depois que Baby morreu, prematuramente, com apenas quatro anos, você casou de novo, com um dragão que nunca te mereceu, a Luna, e com ela está até hoje.

Mas hoje eu percebi a tua idade. Pela primeira vez nos anos de nossa convivência te vi trôpego, e percebi que não vai demorar muito e você vai me deixar para se encontrar com a “Linda Baby”, acredite, nunca me senti tão triste quanto me senti hoje ao te ver tão cansado.

Amanhã, você vai ao Olegário. Eu sei que não devo pedir isto, mas, por favor, esteja bem! Eu não estou preparada para me despedir de você. Não, ainda!!!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A vida como ela é: Confesso que não sabia deste pormenor: a ajuda de Cuba no proceso de extinção do apartheid que tanto penalizou o povo africano! Palmas (mais uma vez) para Cuba!!!

Copa: futebol, racismo e política

Quando Lúcio, o aplicado capitão da seleção canarinho, leu mensagem condenando o racismo antes daquela fatídica partida contra a Holanda, talvez não pudesse medir o grande alcance de seu gesto, que nos obriga a recuperar um fase da história recente. Condenar ali mesmo o racismo era imperioso pois era respeitar aquele povo e também alertar para as novas expressões racistas que estão se projetando em outros países, inclusive países que estavam ali disputando o certame. O artigo é de Beto Almeida.

Beto Almeida (*)

Vai chegando ao final a primeira Copa do Mundo de Futebol realizada na África. Talvez a frustração da torcida brasileira, combinada com uma destrambelhada cobertura midiática, - que exortou sentimentos racistas contra paraguaios e de hostilidade gratuita contra argentinos - não tenha permitido compreender que o simples fato da Copa ter sido na África do Sul é uma grande vitória contra o racismo internacional e contra as grandes potências capitalistas que tentaram boicotar ou desmoralizar os africanos. Mas, sobretudo, é a vitória de um país e de um povo que sequer participou da Copa. Cuba, que ao derrotar o exército racista sul-africano em Cuito Cuanavale, Angola, para onde enviou 400 mil soldados, deu o passo fundamental para a libertação da África do Sul. “A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid. E isto devemos a Cuba”, disse Mandela, após ser liberado de 27 anos de prisão. A torcida mundial deveria ser amplamente informada destas verdades.
Quando Lúcio, o aplicado capitão da seleção canarinho, leu mensagem condenando o racismo antes daquela fatídica partida contra a Holanda, talvez não pudesse medir o grande alcance de seu gesto, que nos obriga a recuperar um fase da história recente. Condenar ali mesmo o racismo era imperioso pois era respeitar aquele povo e também alertar para as novas expressões racistas que estão se projetando em outros países, inclusive países que estavam ali disputando o certame.
Sob o apartheid não haveria Copa na África do Sul
O certo é que a Copa do Mundo só estava se realizando ali em território sul-africano porque milhares de seres humanos deram suas vidas contra o animalesco regime do apartheid, que com o apoio de países como Estados Unidos e Inglaterra, principalmente, massacrou de maneira cruel a pátria de Mandela. A África do Sul racista, imperialista, ditatorial, que foi recebendo sanções internacionais quanto mais crescia a resistência popular em seu interior e mundo a fora, levando-a a receber algumas sanções internacionais, jamais poderia ser a sede de uma Copa do Mundo se estivesse sob o apartheid.
Queremos, portanto, estender a oração do capitão Lúcio para fazer justiça a um povo que não estava disputando a Copa, mas que foi fundamental para que a Copa ali se realizasse para alegria e orgulho da nova África do Sul. A declaração de Lúcio tem raízes na história da solidariedade revolucionária que Cuba ofereceu á África, a começar pelo envio de médicos para a apoiar a Revolução na Argélia, onde esteve trabalhando o próprio Che Guevara.
Enquanto Mandela ainda estava preso, Cuba já estava apoiando os vários processos de libertação em território africano. Libertação que veio a receber um grande impulso a partir da Revolução dos Cravos, em Portugal, liderada por jovens capitães, muitos deles egressos das então colônias portuguesas em território africano, onde aprenderam muitas lições de dignidade por parte daqueles povos a quem deveriam esmagar. Houve capitães que mais tarde relataram que em território angolano se convenceram que a razão da história estava com os guerrilheiros angolanos. Por isso mesmo, chegavam a organizar certas incursões pelas selvas, onde deixavam deliberadamente suas armas para serem recolhidas pelos soldados do Movimento Popular para a Libertação de Angola, simulando que haviam sido desarmados, quando estavam a dizer, com aquele gesto, que apoiavam a causa da libertação africana.
Estes gestos dos militares portugueses floresceram em Cravos Vermelhos pelas ruas de Lisboa, após soarem os primeiros acordes da canção “Grândola, Vila Morena”. A razão histórica venceu! Não sei se o capitão Lúcio, na sua juventude de uma vida dedicada ao futebol, teve oportunidade de informar-se sobre isto antes de ler aquela importante declaração contra o racismo, num gesto de grandeza da nossa seleção.
Cuito Cuanavale: começo do fim do apartheid
Quando Cuba atendeu ao chamado do presidente angolano, o médico, poeta e guerrilheiro Agostinho Neto, para que enviasse ajuda militar para assegurar a libertação de Angola, conquistada em 11 de novembro de 1975, com pronto reconhecimento de Brasil e óbvia contrariedade dos EUA, abria-se uma nova página na história da África, mas também da solidariedade internacional.
A hipocrisia e a malignidade intrínseca da mídia comercial não deu a conhecer aos milhões de torcedores do mundo inteiro de olhos magnetizados no televisor uma linha sequer desta luta heróica para derrotar o apartheid e permitir, afinal, não apenas a libertação de Angola e da Namília, mas também de Nelson Mandela e a erradicação total do regime racista, derrotado no campo militar em Cuito Cuanavale e, mais tarde, novamente derrotado pelos votos que elegeram Mandela seu primeiro presidente da república, o primeiro com legitimidade!
Não tínhamos nenhuma dúvida da bravura e da grandeza do gesto do povo cubano ao fazer a travessia do Atlântico no sentido contrário àquela rota feita pelos navios negreiros que vieram para o Brasil e também para o Caribe, nos unindo para sempre na dor, no sangue, na música, na cultura e também no compromisso de saldar esta imensa dívida que toda a humanidade tem para com os povos africanos. Porém, Cuba decidiu pagar antes de todos e para lá enviou 400 mil homens e mulheres, negros e brancos, inclusive a brancura da filha de Che Guevara, que também já havia lutado em Cabinda, enclave angolano próximo ao Congo. O médico brasileiro Davi Lerer estava exilado em Angola naquele período, ensandecido de solidariedade e de compromisso com a libertação angolana. Foi quando começou a perceber que alguns dos feridos de guerra por ele tratados, falavam espanhol. Era fruto da Rota do Atlântico feita no sentido contrário, no sentido da libertação. Todos devemos à Mama África. Mas, só Cuba teve a audácia de pagar esta dívida com armas nas mãos!
Armas nucleares contra Cuba
A nobreza do gesto provocou o instinto assassino das chamadas democracias imperialistas. Acaba de ser divulgado que Israel ofereceu armas nucleares à África do Sul para serem lançadas sobre as tropas cubanas no sul de Angola. Com o apoio dos aviões Migs de fabricação soviética, as tropas do exército racista da África do Sul foram enxotadas de território angolano, postas para correr também do território da Namíbia, cujas forças revolucionárias também formavam aquele formidável exército de libertação. Chegou-se a discutir nas forças de libertação a ida até Pretória!. Por isto os imperialistas cogitaram o uso de armas nucleares contra o exército cubano, pois o seu exemplo de internacionalismo proletário era por demais poderoso à humanidade! Tudo isto resultou no agravamento da crise do regime de Botha, na libertação de Mandela, no fim do apartheid, nas eleições diretas, e, por fim, na conquista da realização da Copa do Mundo, pela primeira vez, em território africano!. Vitória da humanidade, após tantas vitórias que abrilhantam a linda história de justiça da humanidade, unindo a Revolução Cubana à Revolução dos Cravos de Portugal! As armas nucleares na foram utilizadas daquela vez. Não se atreveram! Não se sabe se as utilizarão agora contra o Irã.
Racismo nos países imperialistas
A condenação ao racismo lida pelo nosso capitão, é atualíssima. Tem endereço. Depois da desclassificação das seleções dos EUA e da França, vimos pipocar novamente manifestações de racismo contra negros, imigrantes, árabes, hispânicos, sobretudo nestes dois países. Há os que considerem a França uma democracia exemplar, mas não querem prestar atenção nas declarações de Zidane, o craque da seleção francesa de origem argelina. Contrariando a tese dos acadêmicos pouco atentos, ele questiona a democracia francesa: “Eu posso ser campeão do mundo com a camisa da França, orgulho nacional, mas não posso eleger o presidente?” Agora o deselegante técnico da seleção francesa atira a culpa pelo fracasso aos jogadores de origem africana, à cultura dos bairros de periferia das grandes cidades francesas. Nenhum questionamento ao sistema político francês que é tão duramente combatido pelos jovens das periferias pobres na França, sem perspectiva de estudo ou de emprego!
Nos EUA não foi muito diferente. Buscam-se justificativas para a desclassificação, mas, as vozes racistas voltam a falar alto, sobretudo contra hispânicos, asiáticos e afro-descendentes. A gigantesca contradição política vivida pelos Eua só tende a se agravar, certamente de forma dramática, já que o presidente Obama tem sido pressionado pelo complexo militar-industrial a reforçar sua presença armada mundo afora. Já mandou mais 30 mil soldados para o Afeganistão, continua a ordenar bombardeios de povoados matando crianças e destruindo alvos civis naquele país empobrecido. Esqueceu-se das torturas de Guantânamo? Manda uma frota nuclear para as proximidades da costa do Irã. Multiplica o orçamento do Pentágono. O prêmio Nobel da Paz vai se revelando o Prêmio Nobel da Guerra e continua colecionando cadáveres e mais cadáveres!
Na linha inversa, o Brasil aprova o seu Estatuto da Igualdade Racial e cria a Universidade Lusoafricana Brasileira (Unilab), na cidade cearense de Redenção, a primeira em extinguir o escravagismo no Brasil. Lá teremos professores e studantes africanos, estudando gratuitamente. É a forma brasileira de também começar a apagar a enorme dívida que temos para com os povos africanos, como assinalou Lula. É verdade que estes dois gestos concretos nos chegam com 112 anos de atraso. Há muito ainda para caminhar, mas a linha é a de continuar a abrir espaços para que os negros sigam aumentando sua presença qualificada nas universidades, para que os Territórios dos Quilombos sejam definitivamente escriturados em nome dos remanescentes dos escravos, que as políticas públicas de habitação contemplem as necessidades da população negra, ainda alvo de desumana discriminação no mercado de trabalho, recebendo ainda os piores salários, ocupando as piores funções, e, ainda por cima, confinada à invisibilidade nos meios de comunicação, salvo as honrosas exceções da comunicação das tvs públicas e comunitárias, que registram alguma justiça racial televisiva.
Rivalidades exageradas são contra a cooperação
O mau exemplo vem exatamente das tvs comerciais. Ofendem gratuitamente ao povo paraguaio ou insuflam uma exagerada hostilidade contra argentinos, certamente, fazendo um tipo de jornalismo de desintegração, exatamente quando nós latino-americanos estamos a organizar e por em prática, por meio de vários governos, políticas públicas de integração econômica, energética, comercial, cultural educacional. Seguindo as orientações dos que querem impedir que sejamos solidários e cooperativos entre nós - por acaso, as mesmas nações imperiais que antes apoiaram o apartheid e recentemente tentaram boicotar a realização da Copa na África - cria-se um clima para uma rivalidade exacerbada, agressiva, verdadeira hostilidade, por exemplo contra argentinos e paraguaios.
Basta recordar o comportamento do capitão da seleção uruguaia, Obdúlio Varela, que ,em 1950, fez o Brasil todo chorar quando derrotarem a equipe canarinha em pleno Maracanã. Varela sentiu tanta segurança e confiança no caráter amistoso do povo brasileiro que foi comemorar a vitória uruguaia com brasileiros na noite carioca, sendo tratado com fraternidade e nobreza olímpicas pelos nosso povo. Diante de comportamento tão elevado dos brasileiros, certos narradorestelevisivos de hoje, apesar de frequência em certames internacionais, revelam-se verdadeiramente torpes e ineptos para alcançarem um padrão de jornalismo desportivo minimamente olímpico, tal como a Grécia Antiga - não a atual induzida á falência pela oligarquia financeira - legou à humanidade. Querem animalizar, embrutecer, despertar baixos instintos, estando portanto, em choque frontal com os princípios e valores que a Constituição pauta para os meios de comunicação, exigindo que sejam educativos, respeitosos aos mais nobres valores humanos e destinados à elevação cultural da sociedade.
As nações imperiais sabem perfeitamente da utilidade destas rivalidades fomentadas, muitas vezes artificialmente. Sobretudo contra povos que possuem grande potencial de cooperação entre si, como é o caso de Brasil e Argentina, cuja integração das bases produtivas poderia acelerar e encurtar sobremaneira os prazos históricos para a integração da América Latina. Por isto fazem o jornalismo da desintegração. Pela mesma razão, são incapazes, como meios de comunicação, de informar sobre o papel que Cuba desempenhou na história recente de libertação da África.
Jornalismo de integração
As nossas tvs públicas precisam fazer o contraponto. A diversificação e a pluralidade informativas, neste episódio, seriam extremamente válidas. Sobretudo se permitisse ao povo brasileiro conhecer quanta história existe por detrás da declaração contra o racismo que o capitão Lúcio fez naquele estádio repleto de sul-africanos libertos do regime do apartheid. E também conhecer quanta manipulação se faz do esporte, em nome de causas mesquinhas e anti-civilizatórias, como as que pretendem reviver o racismo e o impedimento ideológico da cooperação e da solidariedade entre os povos que tem um destino comum. O da unidade, da cooperação e da solidariedade.
(*) Beto Almeida é diretor de Telesur