quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pedro Tierra: Os Filhos da Paixão

No ato de artistas e intelectuais realizado ontem, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, antes da fala da candidata Dilma Rousseff, foi lido o poema "Os filhos da paixão", de Pedro Tierra, sob silêncio absoluto. Um de seus trechos diz: “Queremos um país onde não se matem as crianças/ que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro./ Onde os filhos da margem tenham direito à terra,/ ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,/ às histórias que povoam nossa imaginação, às raízes da nossa alegria”. Leia o poema na íntegra.

Redação

OS FILHOS DA PAIXÃO
Nascemos num campo de futebol.
Haverá berço melhor para dar à luz uma estrela?
Aprendemos que os donos do país só nos ouviam
quando cessava o rumor da última máquina...
quando cantava o arame cortado da última cerca.
Carregamos no peito, cada um, batalhas incontáveis.
Somos a perigosa memória das lutas.
Projetamos a perigosa imagem do sonho.
Nada causa mais horror à ordem
do que homens e mulheres que sonham.
Nós sonhamos. E organizamos o sonho.
Nascemos negros, nordestinos, nisseis, índios,
mulheres, mulatas, meninas de todas as cores,
filhos, netos de italianos, alemães, árabes, judeus,
portugueses, espanhóis, poloneses, tantos...
Nascemos assim, desiguais, como todos os sonhos humanos.
Fomos batizados na pia, na água dos rios, nos terreiros.
Fomos, ao nascer, condenados a amar a diferença.
A amar os diferentes.
Viemos da margem.
Somos a anti-sinfonia
que estorna da estreita pauta da melodia.
Não cabemos dentro da moldura...
Somos dilacerados como todos os filhos da paixão.
Briguentos. Desaforados. Unidos. Livres:
como meninos de rua.
Quando o inimigo não fustiga
inventamos nossas próprias guerras.
Desenvolvemos um talento prodigioso para elas.
Com nossas mãos, sonhos, desavenças compomos um rosto de peão,
uma voz rouca de peão,
o desassombro dos peões para oferecer ao país,
para disputar o país.
Por sua boca dissemos na fábrica, nas praças, nos estádios
que este país não tem mais donos.
Em 84 viramos multidão, inundamos as ruas,
somamos nosso grito ao grito de todos,
depois gritamos sozinhos
e choramos a derrota sob nossas bandeiras.
88. Como aprender a governar,
a desenhar em cada passo, em cada gesto,
a cada dia a vida nova que nossa boca anunciou?
89. Encarnamos a tempestade.
Assombrados pela vertigem dos ventos que desatamos.
Venceu a solidez da mentira, do preconceito.
Três anos depois, pintamos a cara como tantos
e fomos pra rua com nossos filhos
inventar o arco-íris e a indignação.
Desta vez a fortaleza ruiu diante dos nossos olhos.
E só havia ratos depois dos muros.
A fortaleza agora está vazia
ou povoada de fantasmas.
O caminho que conduz a ela passa por muitos lugares.
Caravanas: pelas estradas empoeiradas,
pela esperança empoeirada do povo,
pelos mandacarus e juazeiros,
pelos seringais, pelas águas da Amazônia,
pelos parreirais e pelos pampas, pelos cerrados e pelos babaçuais,
mas sobretudo pela invencível alegria
que o rosto castigado da gente demonstra à sua passagem.
A revolução que acalentamos na juventude faltou.
A vida não. A vida não falta.
E não há nada mais revolucionário que a vida.
Fixa suas próprias regras.
Marca a hora e se põe de nós, incontornável.
Os filhos da margem têm os olhos postos sobre nós.
Eles sabem, nós sabemos que a vida não nos concederá outra oportunidade.
Hoje, temos uma cara. Uma voz. Bandeiras.
Temos sonhos organizados.
Queremos um país onde não se matem crianças
que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro.
Onde os filhos da margem tenham direito à terra,
ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,
às histórias que povoam nossa imaginação,
às raízes da nossa alegria.
Aprendemos que a construção do Brasil
não será obra apenas de nossas mãos.
Nosso retrato futuro resultará
da desencontrada multiplicação
dos sonhos que desatamos.
Pedro Tierra
1994

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vale a pena ver este vídeo, para entender um pouco mais sobre a situação do Brasil neste segundo turno das eleições presidenciais.

Os riscos do obscurantismo - (Texto retirado do site “Carta Maior”, de autoria do Senhor Emir Sader)

 

image

O aspecto mais grave da atual campanha eleitoral é o apelo ao obscurantismo como arma política. Quando tinha se configurado – segundo as cada vez mais questionadas pesquisas – uma maioria em torno de um projeto geral para o país, a oposição tratou de – como disse muito bem uma analista – encontrar um atalho para falar ao povo de outra maneira, buscando deslocar a temática central, em que estaria sofrendo derrota clara.

Foi a tentativa de encarar o tema do aborto sob a ótica mais retrógrada. Justo um partido que se pretendia ilustrado, apelou para as forças mais retrógradas, para tentar explorar os sentimentos mais conservadores de setores significativos da população.

Um avanço da modernidade foi a separação republicana entre a esfera pública e a esfera privada, entre as opções que se referem à privacidade e à liberdade de cada um e aquelas que se referem aos direitos de todos. Ninguém é obrigado a ter uma religião determinada ou mesmo ser religioso, mas todas as formas de expressão religiosa são admitidas e protegidas.

O tema do aborto se prestou para a virada conservadora nos EUA e no mundo. Depois de longa luta, o movimento feminista conseguiu aprovar o direito ao aborto, em diferentes níveis e versões. Em um país como a Itália, por exemplo, se tinha conseguido aprovar, em referendos nacionais, tanto o divórcio, como o aborto, apesar da oposição do governo Democrata Cristão e do Vaticano. Era uma conquista positiva o direito da mulher de dispor do seu próprio corpo e da sua reprodução.

A virada conservadora tratou de inverter as coisas, reivindicando “a vida” contra o aborto, criminalizando os que pregavam o aborto e inclusive os que o praticavam. Tentava-se impor crenças de algumas religiões sobre os interesses gerais. É a lógica dos Estados fundamentalistas – islâmicos ou sionista -, em que não existe o principio republicano da igualdade diante da lei, substituída pelo privilegio da religião dominante. É uma lógica retrógrada, que faz da religião fator de desigualdade, abolindo o caráter laico e republicano do Estado moderno.

Foi nessa onda conservadora que praticamente todos os cargos importantes da Justiça norteamericana foram mudados numa direção conservadora, em que o financiamento das escolas religiosas aumentou exponencialmente às custas das escolas privadas.

A ofensiva gigantesca do Vaticano contra a Teologia da Libertação liquidou uma corrente popular de grande aceitação no mundo católico, facilitando o avanço dos evangélicos e da corrente carismática dentro do catolicismo – ambas com viés fortemente conservador.

Os preconceitos religiosos sempre foram utilizados em campanhas eleitorais brasileiras, seja para tentar a eleição de candidatos laicos, seja para promover a eleição de bancadas de religiosos. Mas, pela primeira vez, pode ser um aspecto decisivo para definir a eleição presidencial, com conseqüências desastrosas para a democracia e o caráter republicano do Estado.

Uma candidatura como a de José Serra, que era dada como morta, de repente se vê guindada ao segundo turno, pelos votos de outra candidata – Marina da Silva -, e sem programa a propor, lança-se a tentar ganhar de qualquer maneira, apelando para o as calunias e a exploração conservadora dos sentimentos religiosos de uma parte da população.

O que está em jogo não são apenas duas candidaturas: é se o projeto de diminuição – pela primeira vez – das desigualdades e da injustiças no Brasil terá continuidade e aprofundamento ou se será brecado e um governo similar aos dos anos 90 voltará ao governo, com os riscos de obscurantismo, repressão, entreguismo e outros tantos retrocessos.

Charge: Latuff
Postado por Emir Sader às 05:25

Weslian Roriz e sua atitude desrespeitosa para com a população do Distrito Federal

 

E novamente o inimaginável aconteceu: Weslian Laranja Roriz novamente falta ao debate programado, desta vez, pela TV Record.

A população de Brasília tem realmente sido destratada por esta pretensa “alguma coisa entre candidata e laranja ou ainda possível laranjausente ” que se propôs a assumir o lugar do marido ficha-suja no papel de candidato ao GDF.

Mas afinal, acho que a ninguém deve espantar tal comportamento, afinal estamos falando da esposa do “Coronel – Pretenso Deus – Darth Vader – Tio Joca” Joaquim Roriz (sic, sic, sic, sic, e sic), e pelo menos nós, professores, nos lembramos muito bem como já fomos desrespeitados por este senhor em anos passados enquanto lutávamos para que nosso salário e nossas condições de trabalho não fossem de vez para o ralo por culpa da incompetência administrativa do mesmo...

Mas o fato permanece: novamente Brasília se viu impossibilitada de refletir sobre o programa de governo que esta (sic) candidata pretende implantar no Distrito Federal se (sic, sic, sic, sic, e sic) a mesma conseguir, para desgraça de toda a população deste lugar (SIC, SIC, SIC, SIC, e SICCCCCCCC), ser eleita governadora.

E novo nome surge para Weslian Roriz: além de candidata laranja, agora agrega a seu slogan o apelido “Sombra”, devendo ficar conhecida para a prosperidade como Weslian “Sombra Laranja Ausente Eternamente” Roriz…

Cuidado aí, GDF!!!!!!!!!

domingo, 17 de outubro de 2010

Marina Silva! ... ou como a sede pelo poder conseguiu que uma guerreira ficasse em cima do muro...

Foi bonito! Concordo que foi bonito o trajeto de Marina Silva! E ela poderia ter se tornado uma esperança política para todos os brasileiros, um sinônimo de garra, de coerência, de amor pelo povo deste país.

Mas Marina Silva entrou para o Senado, conviveu com as benesses da vida de um senador, experimentou a vida mansa de uma ministra, e hoje deve morar em algum prédio mais que luxuoso da cidade de Brasília. Marina Silva já não é Marina Silva, a companheira de Chico Mendes, com quem fundou a Central Única dos Trabalhadores, já não é aquela lutadora que trabalhou como empregada doméstica, já não é aquela analfabeta que se alfabetizou aos 16 anos, já não é aquela ativista do Partido Revolucionário Comunista, já não é aquela defensora do meio ambiente que veio do Norte para Brasília trazendo o sangue de Chico Mendes no coração.

Hoje, Marina Silva é uma mãe de família que quer defender o seu, pois “pouca farinha, o meu pirão primeiro”...

Marina Silva quer mais é pensar no futuro, e não no futuro do Brasil ou no futuro do povo brasileiro, Marina Silva quer pensar é em 2014, quando espera ressurgir como a esperança para este país para o qual agora vira as costas!

Marina Silva afirma que não vai apoiar nem Dilma nem Serra. Bem, até onde eu entendo as palavras como elas são, isto é ficar em cima do muro!

E isto é muito grave, pois o povo brasileiro precisa da continuidade das ações desenvolvidas pelo governo Lula, precisa ainda de muitas coisas urgentes: precisa de moralidade na vida política deste país, precisa de mais empregos, precisa de melhores hospitais, precisa de escolas em turno integral para que os jovens não fiquem soltos nas ruas à mercê de marginais, precisa de policiais mais treinados, precisa de uma política que priorize a reciclagem do lixo, precisa de uma política de juros mais viável, precisa de uma reforma tributária, precisa de um judiciário mais ágil, precisa de programas de atendimento aos idosos, precisa de mais agilidade na máquina do executivo, precisa de mais concursos, precisa de mais cursos de formação profissional, precisa...

Bem, se eu fosse listar o que o povo do Brasil ainda precisa, o povo no qual um dia existiu uma Marina Silva, o povo que escolheu Marina Silva como uma deputada, uma senadora e agora como a terceira colocada em uma eleição presidencial que vai definir os rumos deste país por mais quatro anos, se eu fosse listar tudo que este povo ainda precisa para continuar saindo da situação difícil que 20 anos de ditadura e governos claramente descompromissados com os pobres acarretaram e que o governo Lula tenta diariamente corrigir...

Mas Marina Silva não tem mais um compromisso com este povo, Marina Silva já não mais sente fome, Marina Silva já não mais se utiliza do SUS para ela e suas filhas e filhos, Marina Silva agora tem seguranças particulares que a isolam da realidade deste país, Marina Silva se coloca plantada em cima de um muro, longe das doenças, das dificuldades, da violência que assombram a parcela da população que continua na luta pela sobrevivência diária.

Então é fácil para a Senhora Deputada, Senadora, Ministra, Candidata a Presidência afirmar sua neutralidade! Neutralidade tem aqueles que estão com a vida ganha, que não precisam de um país coerente, digno, honesto. Neutralidade é para aqueles que querem que tudo se exploda, pois “seu pirão está garantido”!

E como o Brasil peca pela falta de memória política, como as escolhas da maioria dos brasileiros são escolhas de um povo que não sabe pensar além do nariz... da Globo, Dona Marina Silva sabe que daqui a algum tempo, ela poderá voltar e se lançar como candidata a qualquer coisa, pois poucos se lembrarão desta traição que ela comete agora ao não escolher ou Dilma ou Serra. E ela conta com isso para ser a futura Presidente do Brasil...

Horário de Verão

Começa às 0h do dia 17 de outubro o horário de verão. Então, amanhã teremos um dia de 23 horas, já que adiantaremos 1 hora no nosso tempo…

O horário de verão valerá para MT, MS, GO, DF, MG, ES, RJ, SP, SC, PR e RS.

Estaremos com os relógios adiantados até o dia 20 de fevereiro de 2011, quando, então, atrasaremos nossos relógios em uma hora e teremos então um dia com 25 horas.

Milagres da modernidade!!!

Apelo…

Pessoal,
Tenho estado muito preocupada com o rumo que o candidato José Serra e seus defensores vêm imprimindo à campanha à presidência da República. Assisti ao primeiro debate em que ele e Dilma se encontraram pela primeira vez no segundo turno, e não gostei dos posicionamentos que este candidato apresentou e também não gostei do rumo que as discussões tomaram.
Ficou uma coisa você-é-a-favor-do-aborto-você-é-a-favor-do-aborto-você-é-a-favor-do-aborto-você-é-a-favor-do-aborto-e-blá-blá-blá que me lembrou muito a atitude de certo segmento da sociedade que se concentra em um ponto negativo que porventura exista como forma de impedir que a discussão de temas mais pertinentes e interessantes se aprofundem, então é só você-é-a-favor-do-aborto-você-é-a-favor-do-aborto-você-é-a-favor-do-aborto-você-é-a-favor-do-aborto-e-blá-blá-blá e nada da conversa ou debate ou discussão ou seja lá o que aquilo pretenda ser evoluir para esclarecimentos mais pertinentes e interessantes.
Outro ponto que me tem desgostado muito é a pressão que fazem contra a candidata Dilma pela sua participação contra a ditadura! De repente parece que tudo que o Brasil sofreu, o golpe militar, o Congresso cassado, deputados eleitos pelo voto popular impedidos de representar seus eleitores, estudantes que desapareceram, a tortura que muitos sofreram, a morte de tantos brasileiros, de repente me parece que tudo isto não existiu, e que a Dilma foi simplesmente uma porra-louca que resolveu lutar contra quimeras e moinhos de vento! Gente! Acorda! A ditadura foi terrível, não se esqueçam de Chico Buarque e Caetano Veloso partindo para o exílio, do filho da Zuzu Angel assassinado, dos estudantes apanhando nas passeatas, das bombas de gás lacrimogêneo, das reuniões de mais de três estudantes serem consideradas subversivas, dos anos que passamos sem poder escolher nossos governantes, da escolha arbitrária dos governadores e dos presidentes do nosso país por mais de 20 anos, do sumiço de tantos brasileiros nos porões da ditadura, do Wladimir Herzog, e de tantos outros que sofreram na pele as arbitrariedades que aconteceram neste país. E respeitem quem lutou contra tudo isto, respeitem quem foi preso, quem apanhou, quem com seu ânimo e sofrimento conseguiu reverter esta situação, quem participou de tantas passeatas, e quem conseguiu fazer com que, em 2010, estejamos podendo escolher democraticamente nossos governantes e nosso destino!
Também não gosto da insinuação sub-reptícia de que uma mulher não pode ser a governante de um país. Afinal, a quem tantos homens devem agradecer a vida de sucesso e prestígio que tem agora? Se não fôssemos nós, com nossa força, nosso discernimento, nossa coragem, com nosso coração delicado e que ao mesmo tempo é uma fortaleza onde em tantos momentos nossos filhos se abrigam das tempestades do mundo, vocês acham que seriam hoje pessoas? Vocês nem existiriam, pois sem nós o bem mais básico não lhes teria sido dado, que é o bem da vida, vocês dependeram de nós no momento mais frágil de suas existências, e nós os guiamos e os orientamos e os alimentamos e cuidamos de vocês! E agora tem gente que duvida de nossa capacidade?! Ora, faça-me o favor!!!
Por tudo isto, escrevo agora este meu desabafo. Não quero que todos concordem comigo, não quero que todos votem na Dilma, como eu o farei no dia 31 de outubro. O que eu quero, aliás, o que eu exijo, é que o nível desta campanha se eleve. Que parem de me mandar emails acusando Dilma de homossexual, terrorista, assassina de criancinhas, ou o que mais quiserem inventar por ai! Por favor, discutam comigo O PROGRAMA DE GOVERNO DA DILMA E DO JOSÉ SERRA. TENTEM AGIR COMO ADULTOS E OBSERVEM AS PROPOSTAS DOS CANDIDATOS!!! Parem de tanta baixaria! E não se esqueçam, como diz o ditado popular: QUEM TEM TELHADO DE VIDRO, NÃO JOGA PEDRA...
Ângela
Em tempo: Segue abaixo texto retirado do blog do Josias na folha.com (
http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/)
Serra e sua mulher devem à ‘platéia’ uma explicação
Deve-se considerar a opção religiosa e a intimidade de alguém no momento da escolha de um chefe de Estado? Pensando melhor, adie-se a pergunta.
Comece-se de outro modo: o debate beato que tomou conta da cena eleitoral injetou em 2010 um quê de inquisição.
Serra viu na dubiedade de Dilma uma avenida de oportunidades. Chamou-a de “duas caras”.
Ontem incrédula, hoje cristã. Antes pró-descriminalização do aborto, agora contra.
Súbito, Monica Serra, a mulher do candidato tucano, mirou abaixo da linha da cintura.
Há um mês, num evento de campanha realizado na Baixada Fluminense, Monica disse que Dilma é a favor de “matar criancinhas”.
Veiculada pela ‘Agência Estado’, a frase de Monica não foi desmentida. Dilma esfregou a declaração na face de Serra.
Deu-se no debate de domingo passado. Serra poderia ter ecoado a mulher. Poderia também tê-la desdito. Preferiu o silêncio.
Mal comparando, o lero-lero da morte de “criancinhas” evocou 1989, o ano em que Collor trouxe para o centro da arena eleitoral Lurian.
Logo se descobriria que Collor escondia, ele próprio, um segredo. Patrocinou a acusação de que Lula propusera o aborto a uma antiga namorada...
...E recusava-se a reconhecer filho gerado fora do casamento. Collor negava-lhe o sobrenome da família.
Pois bem. Surge agora a informação de que a psicóloga Monica Serra também teria ceifado a vida de uma “criancinha”.
Em notícia levada às págins da Folha, a repórter Mônica Bergamo conta o seguinte:
1. A mulher de Serra ministrava, em 1992, um curso de dança na Unicamp. Ex-alunas de Mônica dizem ter ouvido dela a revelação de que fez um aborto.
2. Quando? Na época em que vivia com Serra no Chile. No dia seguinte ao debate de Dilma com Serra, uma das ex-alunas de Mônica foi ao Facebook.
3. Chama-se Sheila Canevacci Ribeiro. É bailarina. Tem 37 anos. Ficou abespinhada com o silêncio de Serra. Levou sua “indignação” ao sítio de relacionamento.
4. Escreveu que Serra, por “escorregadio”, desrespeitou "tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Monica Serra já fez um aborto".
5. Prosseguiu: "Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o seu aborto traumático".
6. Perguntou: "Devemos prender Monica Serra caso seu marido fosse [sic] eleito presidente?" A mensagem correu a web. A repórter da Folha foi ouvir Sheila. E ela confirmou “cem por cento” o teor de seu texto.
7. No primeiro turno, Sheila votou em Plínio de Arruda Sampaio. No segundo, votaria em Dilma. Mas estará no Líbano, onde fará uma performance.
8. Sheila é filha da socióloga Majô Ribeiro, ex-aluna de mestrado, na USP, de Eva Blay, suplente de Fernando Henrique Cardoso no Senado em 1993.
9. Militante feminista, Majô foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, fundado por Ruth Cardoso (1930-2008).
10. Ouvida, Majô se disse "preocupada" com a revelação da filha. Mas disse tê-la criado para "ser uma mulher livre". Acha que Sheila "agiu como cidadã".
11. A reportagem traz também declarações de uma colega de classe de Sheila nas aulas de dança da ex-professora Monica Serra.
12. Sob o compromisso do anonimato, a colega contou: Nas aulas da mulher de Serra, as alunas costumavam sentar-se em círculos.
13. Sob atmosfera de intimidade, Monica explicava como os traumas da vida alteram os movimentos do corpo e se refletem na vida cotidiana.

14. Era nesses momentos, segundo ela, que profressora e alunas compartilhavam suas experiências de vida. Nessas aulas, Monica teria falado sobre o aborto.
15. Segundo a ex-aluna, Monica disse que fez o aborto por causa da ditadura. Por quê? O futuro dela e do marido Serra era muito incerto. Grávida, sentiu-se em situação vulnerável.

16. Ouça-se agora mais um pouco de Sheila: "Ela não confessou. Ela contou. Não sou uma pessoa denunciando coisas. Mas [ela é] uma pessoa pública, que fala em público que é contra o aborto, é errado. Ela tem uma responsabilidade ética".
Retorne-se à pergunta inicial: Deve o eleitor considerar a opção religiosa e as vicissitudes íntimas de alguém no momento da escolha de um presidente da República?
Em condições normais, a resposta seria um sonoro “não”. Busca-se um presidente, não um santo. Porém...
Porém, ao servirem-se do discurso carola para desqualificar Dilma, Serra e Monica tornaram-se devedores de uma boa e consistente explicação.
Procurada por dois dias, a mulher de Serra não respondeu à reportagem. A assessoria de Monica alegou que ela viajara para o Chile e estaria ilocalizável. “Não há como responder”, informou-se, por e-mail. Pena.