sábado, 20 de julho de 2013

A VERDADE DAS RUAS…

QUE FOTO ESTRANHAMENTE LINDA! (Sunset and Fog over San Francisco)

SERÁ QUE PEGA NO BRASIL?! “Em Lisboa, lixo na rua dá multa de 97 euros.”

Em 15 dias, o carioca que jogar lixo na rua começa a ser multado pela Comlurb. A prática de coibir a sujeirada em espaços públicos, novidade por aqui, é comum em países europeus. Em Lisboa (Portugal), por exemplo, o cidadão mais descuidado que deixar um saco do lixo no chão ou no entorno de uma lixeira pode ter que pagar de 25 a 97 euros (algo entre R$ 72 e R$ 283). Parece muito? Pois experimente deixar fezes de cão em logradouro público por lá: se flagrado terás que pagar nada menos do que R$ 2.129.

NEOFASCISMO COXINHA TENTA VIRAR IDEOLOGIA. (Miguel do Rosário)

MINHA OPINIÃO: NÓS, OS BRASILEIROS, ESTAMOS “DE SACO CHEIO” DE TANTA TENTATIVA DE MANIPULAÇÃO! SOFREMOS COM MOVIMENTOS DISPARATADOS DE TODOS OS LADOS, E TODOS TENTANDO SE VALER DE UMA POSSÍVEL INGENUIDADE DO POVO BRASILEIRO. MAS, PELO MENOS DA MINHA PARTE, EU VOS DIGO: N I N G U É M QUE DESTRÓI, QUE VANDALIZA ME REPRESENTA. POSSO ATÉ PARAR PARA ANALISAR. MAS NÃO OS ACEITO COMO MEUS REPRESENTANTES. SOU L  I  V  R  E PARA ESCOLHER O MEU CAMINHO E MEUS DESEJOS SÃO SÓ MEUS. E OS FAREI VALER NA PRÓXIMA E  L  E  I  Ç  à O. QUANDO ESCOLHEREI, E SÓ ENTÃO, MEUS REPRESENTANTES!

 

Francisco Bosco, que talvez anseie se tornar uma espécie de Sartre dos coxinhas, publicou a seguinte mensagem em seu Facebook: A PM pergunta: “Quem está tentando saquear lojas está reivindicando um país melhor?” No contexto político presente, sim, está. Passar ao real é o último recurso para transformar uma realidade que se especializou em frustrar todos os demais recursos (“política”, nas democracias contemporâneas, virou isso). Assim como, nessas condições, a política depende do real para realizar-se, por outro lado a única atitude que pode tirar as pessoas das ruas e acabar com essas passagens ao real é uma atitude efetiva, vinda do Estado, na realidade. Ou seja: ações, não apenas discursivas, mas concretas, por meio das quais o Estado reconheça sua responsabilidade pela revolta popular e comece a fazer política verdadeira, servindo à população. Mas, em vez disso, temos um governador a quem falta qualquer senso de realidade e uma polícia que sabe apenas passar ao real. Pois bem, não vai ser no registro do real que tudo isso será resolvido, mas no registro da realidade. E os manifestantes, mesmo aqueles que passam ao real (os “vândalos”) na verdade não querem isso, não querem falar a “linguagem” da PM. Esse é apenas o último recurso que resta quando os recursos da realidade são todos falseados. Portanto, respondendo novamente à pergunta da PM, quem está tentando saquear lojas está, precisamente, reivindicando um país melhor. E eles nos representam. São os únicos que realmente nos representam. Bem, vou repetir a frase que o próprio Bosco repetiu: quem está tentando saquear lojas está, precisamente, reivindicando um país melhor. E eles nos representam. São os únicos que realmente nos representam. Esse é o nível dos colunistas do Jornal O Globo. Defensores do terrorismo coxinha, disfarçado sempre de “manifestações pacíficas”. Um bando de idiotas mascarados quebrando e saqueando lojas, inclusive a fachada da Globo, incendiando carros de reportagem, depredando patrimônio público. E tudo para fazer uma revolução? Para defender uma lei de herança? Para defender uma reforma urbana que contenha uma tributação adequada para evitar que uma pessoa tenha excesso de imóveis – situação que gera o aumento no preço dos aluguéis por deixar milhares de apartamentos em mãos de um cartel imobiliário? Para criação de um forte imposto sobre o carro que deveria ser usado para construção de metrôs? Infelizmente, não. Quebram tudo para protestar contra a corrupção, contra a Copa (!) ou contra a “privatização” do Maracanã… Recebi este vídeo pelas redes sociais, falando da organização de uma grande manifestação no dia 7 de setembro. É assustador. É contra tudo e todos, petistas e tucanos, numa estratégia maquiavélica para não se associar a nenhum partido ou ideologia, mas a principal bandeira é contra “os impostos”. Ou seja, há sim interesses ultraconservadores por trás do que está acontecendo no Brasil. Há forças obscuras se movimentando para estancar o crescimento nacional. A quem interessa um país em chamas, desorganizado, com tudo sendo exibido pelo tweetcasting? Que espécie de idiotia coletiva é esta que acha bonito ver mauricinhos saqueando lojas? E se a moda pega? Vamos bater palma assistindo o povo brasileiro aderir a esta loucura coletiva e sair saqueando estabelecimentos comerciais pelo país afora? Vamos copiar modelos de guerra civil africana? É evidente que o resultado será um violento retrocesso conservador. Esta loucura tem de ser combatida na raíz. Os coxinhas já produziram a sua milícia, os mascarados vândalos, e agora começam a pipocar oportunistas querendo faturar intelectualmente. Daqui a pouco estarão dando palastras nos clubes militares, que aliás já declararam apoio entusiástico às manifestações da turma danoninho. O lado bom – se é possível achar que existe um lado bom nisto – é que este nascimento do neofascismo coxinha obriga todos a ficarem acordados: o sindicalismo adormecido, a militância partidária preguiçosa e as pessoas cujo bom senso não foi destruído por colunistas de jornal. Manifestações são positivas quando tem propósitos objetivos, democráticos e populares, e não usam métodos que visam destruir e desestabilizar o país.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

segunda-feira, 15 de julho de 2013

SEMPRE QUE SE SENTIR TRISTE, SONHE. (POR EBERTH VÊNCIO)

Eu saquei que tinha morrido quando comecei a cruzar por um monte de gente que tinha desaparecido antes de mim. Eu não somente vi a famosa luz branca ofuscante no final do túnel, como a trespassei, mergulhando na brancura de um descampado que, certamente, seria o paraíso. No início, fiquei meio intrigado. Eu merecia céus?
Tão acostumado à competitividade da vida terrena, não me deparei com nenhuma banca examinadora das almas novatas, supostamente responsável pelo escrutínio dos desencarnados nos portões do paraíso. Pensei em alma, pensei em carne, e senti uma vontade profunda, profana, de comer um belo espetinho de picanha. Mas continuei a minha célere caminhada rumo à eternidade.
Nada de São Pedro, muito menos Deus e menino Jesus. Ora, era querer demais ser recepcionado pelo pessoal do alto escalão do além, logo eu, uma ovelha desplugada das igrejas. Lembro-me perfeitamente de ter comido as fotos de Rita Cadilac numa Sexta-feira da Paixão (sangue de Cristo tem poder!). É isso mesmo: esse povo do céu sabe de um tudo da vida da gente.
Senti um alívio malandro ao constatar que não teria o meu prontuário lido, relido e comentado em voz alta pelas entidades abalizadoras do céu. Se eu entrara direto assim naquele seleto recinto, sem precisar pular catracas ou me esgueirar, é porque eu era um cara gente boa pra caramba (sem notar, eu acabara de cometer mais um pecadinho de soberba).
Assim que pisei o solo branco do Éden, pensei: “Putz, vou conhecer Elvis e John Lennon pessoalmente”. Sabe leitores, quando se entra no céu pela primeira vez, ficamos meio atordoados, assoberbados, autoconfiantes, metidos a besta mesmo.
Tive sensação idêntica ao estrear fuleiragens num prostíbulo. Como era um adolescente dos mais babões, a vontade de pegar de uma só vez todas aquelas moçoilas desinibidas. Com muito custo e negociação (que Deus me perdoe!), aproveitei uma promoção relâmpago do covil e fiquei com Madalena, fora os trinta e oito chatos pubianos, milhões de gonococos e muito ressentimento.
Arre! Eu não devia ter comparado o céu com um bordel, inda mais num momento solene e único como aquele. Só que eu já estava dentro do paraíso. Com certeza, o meu raciocínio sacrílego passaria incólume aos anjos, santos e demais seres celestiais leitores da mente humana. Não posso mentir pra vocês: naquele cenário pacificador, eu me sentia tão bem quanto o ladrão arrependido que foi crucificado ao lado de Cristo. Cara, eu simplesmente estava sendo aceito!
O primeiro parente desaparecido que encontrei foi meu avô, todo vestido de branco, montado no Tartaruga, um cavalo das antigas. Deus era foda. Eu jamais supunha fosse permitida a entrada de animais de estimação para a eternidade. “Eita, lugarzinho porreta!”, comentei com um arcanjo que passou voando sobre nossas cabeças.
O velho saltou do cavalo velho como se não fosse um velho e me abraçou demoradamente. Pude sentir o familiar cheiro de cigarro de palha nos seus cabelos grisalhos, o que me arrastou de volta à infância na fazenda. Minha memória, de repente, ficou vívida, aguçada. Senti então um remorso danado por quase ter matado um passarinho com o estilingue, aos nove anos.
Mesmo tão antigo como um dos tonéis de carvalho nos quais envelhecia pinga, meu avô já tinha aprendido com os mentores celestiais como ler os pensamentos. Assim, ele me confortou com algum tipo de palavrório roceiro, simplista, do qual não me recordo, pois eu não parava de chorar.
“Uau! Este avant-première vai ser ducaralho”, pensei, lamentando novamente o adjutório de palavrões. De súbito, vieram-me à mente os nomes de todos os parentes mortos, listados em ordem alfabética que era pra não esquecer nenhum defunto, muito menos prestigiar fulanos em detrimento de beltranos. No céu é só amor, e ele não se mede com polegadas. As regras no paraíso também são claras, Arnaldo.
Não demorou muito notei que alguém puxava a barra da minha calça (eu trajava uma impecável roupa branca que jamais usei quando caminhava na terra). Era uma criança, um sobrinho morto ainda aos três anos de idade, arrancado da convivência familiar por conta de um acidente automobilístico dos mais tristes.
Vocês nem imaginam: não dá pra descrever com os vernáculos conhecidos o meu sentimento naquele instante. Outro dia mesmo, antes de eu morrer, enquanto atirava milho aos pombos numa praça (e eles me atiravam os seus fungos, piolhos e bactérias), eu me detive a pensar como estaria o meu sobrinho se ele tivesse sobrevivido e crescido.
O tom dos cabelos teria mudado? Qual seria o timbre da voz? Pra que time de futebol ele torceria? Ou ia gostar de natação? Ele me amaria mais ou menos do que os seus brinquedos de menino? Certo dia, o pai dele (meu irmão) confessou-me que, ao contrário do que se imaginava, ele gostava muito de sonhar com o guri para ouvir a sua voz, sentir o cheiro, tocá-lo. O que vocês acham, leitores: as dores são comparáveis? A comparação, ao menos, presta-se a sofismar o sofrimento, o que já é uma grande vantagem.
Andar a esmo pelo Paraíso tem dessas coisas. Embora cretino, sentia-me meio filósofo. Então abracei o moleque como se estivesse desbancando o próprio Cristo. “Vinde a mim as criancinhas é o cacete! O guri agora é meu. Ninguém tasca”, pensei, sendo impróprio, rude e ingrato outra vez.
A parentalha morta foi se achegando pouco a pouco e, quando dei por mim, já éramos um bando de zumbis animados a ocupar um dos infinitos jardins do Éden. Logo os amigos deram as caras para as boas vindas. Ninguém envelhecera uma ruga sequer. Sem sacanagem: duvido que os cirurgiões plásticos fizessem carreiras tão promissoras num lugar como aquele.
Era emoção que não acabava mais. Eu não ouvi nenhum pássaro-preto cantando na calada da noite. Aliás, avisaram-me logo que no céu nunca anoitecia, uma notícia que me deixou apreensivo. “Uma eternidade sem a lua… Como é que vai ser?”, lucubrei, a duvidar das reais intenções do Altíssimo.
De repente, ouvi a canção “Imagine”. Olhei pro alto de uma pedra branca (naquele lugar tudo era branco, exceto o povo; por sinal, havia muito mais gente negra do que caucasiana, o que reforçava o histórico mundial de agruras da negritude) e avistei John Lennon de terno branco, tocando o seu piano branco de cauda. Ao lado dele não estava a Yoko Ono (todo mundo sabe que a japonesa continua vivinha-da-silva em Nova York), mas o próprio Elvis trajado com o indefectível manto branco cravejado de pedrarias falsas e lantejoulas multicoloridas. O Papa Bento XVI, se ainda fosse Papa, talvez cobiçasse aquela indumentária do rei mais do que o próprio manto sagrado.
Agora só faltava dar de cara com o todo poderoso. Mas fui impedido daquele encontro casual incrível — e que seria de um constrangimento igualmente incrível pra mim — pela mão pesada de dona Cleonice, a diarista. “Acorda, doutor! São quase onze horas…”, ela reclamou a tropeçar em garrafas pelo chão da casa e quase cair. “Ateu filho-da-puta!”.
Não me xingue assim, dona Cleonice. Tenha a santa paciência. Deste jeito a senhora acaba não entrando no reino dos céus. Então fui tomar um banho e escrever esta crônica.

Eberth Vêncio é escritor e médico.