segunda-feira, 24 de maio de 2010

Começo a pensar nas minhas viagens! O mundo me aguarda…

Quando eu comecei a faculdade de Letras, minha mãe ainda estava viva e meu filho morava comigo. Quanto ao meu filho, nenhum problema, mas a situação de minha mãe não era boa, passamos três anos muito sofridos aqui em Sobradinho, mas eu confesso que eu não percebi que teria que lidar com a morte em um futuro tão próximo. Em 2008, no dia 30 de abril, ela faleceu, apesar do sofrimento, respirei aliviada, ela passou dois anos paralisada em cima de uma cama, ora no hospital, ora em casa, e ligada a tubos de toda a espécie, não foi um período fácil, ainda mais que, como sempre acontece, eu tive que enfrentar sozinha toda a dor e todo o drama de sua decadência e morte, pois toda a família sumiu...

Mas a faculdade me ajudou muito, ir às aulas me dimensionava para a vida, tenho uma dívida de gratidão muito grande com todos os professores, que mesmo sem o saberem, foram decisivos para que eu agüentasse a situação de minha casa, talvez por isso até hoje me sinta tão ligada afetivamente a alguns deles.

E hoje, prestes a terminar a faculdade de Letras, começo a sonhar com mais um objetivo meu de meia idade: as minhas viagens pelo mundo.

Meus filhos, bem ou mal, estão encaminhados, e tenho a sorte de ter um ex-marido que é simplesmente o melhor pai do mundo. Às vezes eu tenho vontade de dizer para o Jamil pai minha opinião sobre ele, gostaria de agradecer-lhe por ser tão maravilhoso enquanto pai de Tâmara e Jamil Filho, eu acho que nem eles dois tem a dimensão da sorte que têm de serem filhos daquele homem, e sempre me espanta o poder de superação do Jamil Pai, afinal, ele não teve o carinho de um pai, ele não teve o apoio que agora demonstra tão pródigamente aos filhos, eu o respeito muito por isso. Espero sinceramente algum dia poder dizer isto a ele, e afirmar que, apesar de todas as suas ações neste nosso relacionamento, algumas com as quais até hoje não concordo, o que supera tudo é meu sincero agradecimento por Deus o ter colocado em minha vida, como pai dos meus filhos.

E então, o mundo me espera! Começo agora mais um planejamento para a realização de talvez o meu mais caro desejo: a minha viagem à Europa.

Tenho tudo pensado em minha cabeça: agora que estou terminando minha faculdade, vou me dedicar a passar no concurso para professor temporário da Secretaria de Educação. Quando eu conseguir um contrato, começo a juntar “Money” para minhas viagens.

Vou começar a pesquisar os hotéis econômicos e albergues nos quais pretendo ficar. Começo por Portugal, pois meu primeiro destino será Lisboa, e já tenho endereço certo: a Biblioteca Nacional onde poderei conhecer alguns dos manuscritos de Fernando Pessoa. FANTÁSTICO!!! Depois de Lisboa, uma ida à Espanha faz parte de meu roteiro, mas antes está Paris, onde passarei várias tardes no museu do Louvre! Caramba, que chique!!! A Inglaterra também é outro meu destino certo, pois pretendo fazer um percurso à “Jane Austen”, como não poderia deixar de ser... Outro lugar obrigatório é a Grécia, e confesso que espero que até lá ela já tenha se recuperado das convulsões que a acometem neste nosso misericordioso ano. A Itália também me apaixona, imagino-me andando pelas ruas de Roma, talvez comendo uma massa em uma cantina verdadeiramente italiana... Na Itália, acho que algo que me chama muito a atenção é a Via Apia, com seu calçamento que começou a ser feito antes dos anos cristãos. Quero caminhar neste lugar onde começaram os passos de toda a civilização ocidental, ela me encanta. A Alemanha também está nos meus planos, assim como vários outros países encantadores que tenho certeza, conhecerei em minhas viagens.

Vou abusar dos albergues, apesar do Professor Sálvio os ter descrito como incrivelmente incômodos, pela necessidade de convivência com todo tipo de pessoas, mas como realmente não vou viajar procurando o conforto dos hotéis (até porque sou de opinião que o lugar mais confortável do mundo é... a MINHA CASA!), acho que eles serão boas opções para o tour que pretendo efetuar.

Mas começo a divagar, e não é este o objetivo deste texto, quero apenas começar, com ele, minhas pesquisas sobre albergues e hotéis econômicos que serão o destino primeiro de minhas viagens. E começo por Lisboa:

Gostei deste albergue!

Lisbon Poets Hostel (Rua Nova da Trindade, nr.2 - 5th Floor, Chiado, 1200-302, Lisbon)

Descrição Da Propriedade


Lisbon Poets Hostel é um hostel muito bem situado, no coração de Lisboa, precisamente por cima do café mais conhecido de Lisboa, 'A Brasileira'. Traz um livro contigo e partilha connosco.
Temos disponíveis quartos de 2, de 4 e de 6 pessoas, com cacifos gratuitos dentro dos quartos. Temos também Internet Wi-fi gratuita, pequeno almoço incluído, e também uma cozinha de serviço, uma sala enorme para relaxar, e água quente a toda a hora.
A recepção está aberta 24 horas por dia, temos acesso electrónico aos quartos e ao hostel.
Para tua comodidade, temos ainda serviço de lavandaria.
O check-in é depois das 14 horas.
Pode reservar directamente no nosso website.
Oferecemos 10% de desconto se reservar connosco um mínimo de 5 noites nos nossos dois Hostels, em Lisboa e no Porto!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Considerações lúcidas do senhor Emir Sader sobre “perigos e perigosos”, ou “como raciocinar sem a influência manipuladora da Rede Globo e jornais de direita” ou “vamos analisar apenas os fatos”!!!

Quem representa perigo para a paz mundial?

Lula tinha afirmado que um país que possui armas nucleares não tem condições morais para exigir que outros não tenham. Da mesma forma que afirmou que a mediação dos EUA no conflito entre Israel e Palestina não tinha promovido a paz, porque os EUA possuem interesses diretamente vinculados a Israel, não possuindo credenciais para mediar o conflito com um mínimo de objetividade.
O acordo logrado com o Irã confirma esse critério. O Brasil e a Turquia, membros atuais do Conselho de Segurança, aderentes ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, países do Sul do mundo, puderam obter com o Irã o acordo que a Agência da ONU pede. No entanto, os EUA - tomados de surpresa, porque não acreditavam (e torciam para) que o acordo pudesse ser obtido, agora apelam para o argumento de que “Não acreditamos na palavra dele”, quando o que buscava era exatamente uma palavra e um esquema de apoio. Obtidos, inviabilizariam as sanções que os EUA querem impor.
A atitude dos EUA é a mesma que tiveram no ataque ao Iraque. Queriam provas de armamento de destruição em massa, não obtiveram, alegaram que sim, havia, com isso passaram por cima do Conselho de Segurança da ONU, junto com a Grã Bretanha atacaram e destruíram a mais antiga civilização da história (foram destruídos os lugares históricos e sagrados, mas protegidas as torres de petróleo – o objetivo real da ocupação).
Quem representa perigo para a paz mundial? O Irã, que talvez pudesse vir a construir armamento nuclear, mas que não ocupa nenhum outro país? Ou os EUA, único país na história que usou a bomba atômica – contra Hiroshima e Nagasaki -, possui um arsenal de todo tipo de armamento que representa a metade de todo o armamento existente no mundo? Que atualmente ocupam o Iraque e o Afeganistão, que tem uma história de invasões, ocupações, desembarques militares, amplamente conhecida?
Que desrespeitou o Conselho de Segurança da ONU e atacou o Iraque, apoiado em acusações que não se confirmaram? Que possui bases militares em mais de 10 países em todo o mundo? Ou Israel, que possui armamento nuclear, ameaça constantemente atacar o Irã e ocupa os territórios que devem, segundo a ONU, ser destinados ao Estado Palestino?

Postado por Emir Sader às 11:54

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cuidado!!! Não compre gato por lebre”!!! Rede Globo continua com sua política de manipulação e distorção da verdade!!!

Pessoal,

A rede globo tem adotado uma postura tendenciosa ao comentar os últimos acontecimentos em torno do acordo conseguido pelo Brasil com o Irã.

É preocupante, pois sabemos que somos invadidos pelas notícias da "Plin-Plin" a todo o momento, seja em nossas residências, seja na rua, seja em lojas, seja em bares que tenham uma televisão, seja em consultórios médicos, enfim, uma verdadeira praga.

O pior de tudo é que o povão, aquele que “gruda” no “Faustão” aos domingos e se acha muito bem informado por acompanhar as manchetes do “Fantástico” são os mais suscetíveis de serem manipulados por esta emissora que só tem prejudicado o povo brasileiro, veiculando programas de péssimo nível (BBBs e outros que tais) e deformando notícias, ato este que só demonstram um interesse: desacreditar os esforços de pessoas de bem que lutam para tornar o Brasil um país dos... brasileiros!!! Pecado sem perdão, pois deveríamos ser e continuar sendo por toda a eternidade a cozinha dos Estados Unidos e de outras grandes potências!

Resolvi então remeter algumas considerações sobre o que realmente vem acontecendo com a crise do Irã, e para isso remeto um artigo muito bom do Luis Nassif, espero que ajude a esclarecer alguns tópicos sobre esta situação, com base em verdades, e não manipulações.

Ângela

Luis Nassif
Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política, em eleição popular e da Academia iBest.

A polêmica em torno do acordo do Irã
Coluna Econômica – 19/05/2010
Quem acompanha a crise do Irã apenas pelas manchetes, vai se embaralhar. China, França, a própria ONU elogia; mas em seguida vêm a informação de que os Estados Unidos insisitirão nas sanções contra o Irã. Afinal, sucesso ou fracasso?
A ofensiva do Itamaraty, no episódio do Irã, é um divisor de água na ordem mundial do pós-guerra.
O Conselho de Segurança foi um dos órgãos criados no nascimento da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1945. Os organismos iniciais da ONU foram a Assembléia Geral, o Conselho Econômico e Social (ECOSOC), o Conselho de Tutela (que existiu apenas enquanto houvesse colônias ou países tutelados) o Tribunal Internacional de Justiça e o Secretariado.
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O Conselho de Segurança nasceu com o objetivo de garantir a paz e com poderes quase ilimitados. Poderia impor sanções aos países, criar forças de paz, autorizar invasões, estabelecer embargos econômicos.
Originalmente, foi constituído pelos países vencedores da Segunda Guerra. Na sua composição há cinco membros permanentes – Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China (que foi aceita depois) – e dez rotativos, com mandatos de dois anos e sem direito a reeleição.
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O Conselho começou a perder a legitimidade a partir de dois eventos históricos. O primeiro, o fim da ex-URSS e a profunda crise que se abateu sobre a Rússia, acabando com o polarização bilateral nas discussões internacionais. O segundo, a ofensiva do governo Bush contra o multilateralismo, que chegou ao auge na invasão do Iraque, quando os EUA e a Inglaterra atropelaram a própria decisão do Conselho e decidiram invadir o país.
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De lá para cá, o fracasso da invasão do Iraque e o fim do governo Bush, levaram os EUA a tentar reconstituir o espírito original do Conselho de Segurança, mas com algumas mudanças. A principal delas seria fazer do Brasil um candidato ao Conselho, substituindo a Rússia, especialmente após a enorme projeção adquirida pelo país ao longo da última década.
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A estratégia do Itamaraty, no entanto, foi outra. Confirmando a tendência de liderar grupos de nações emergentes – já manifestada na rodada de Doha -, o Brasil decidiu reforçar a chamada diplomacia “soft”, da negociação.
Em outubro, o Conselho de Segurança fizera uma série de imposições ao Irã, para aprovar seu programa de enriquecimento de urânio. Foram desconsideradas. Quando se preparava para anunciar as sanções, o Itamaraty avançou nas negociações e, junto com a Turquia, conseguiu um acordo com o Irã.
O acordo recebeu palavras de apoio da França, China, da Agência Internacional de Energia Atômica e do próprio Secretário-Geral da ONU. Os EUA iniciaram a contra-ofensiva reiterando o anúncio das sanções.
São essas disputas que explicam críticas e elogios ao acordo.
Provavelmente prevalecerá a velha ordem, que ainda detém o poder na ONU. Mas o passo dado mostra que no jogo de poder internacional já entraram novos atores – como Brasil, Índia e Turquia – e uma nova possibilidade de fazer política, pela persuasão
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segunda-feira, 17 de maio de 2010

“Viva o Brasil! Viva nossa política externa soberana e independente!” – matéria publicada no site Carta Maior de 17 de maio de 2010, de autoria do jornalista Emir Sader

17/05/2010

Viva o Brasil! Viva nossa política externa soberana e independente!

Corvos, urubus, tucanos, todos torcendo contra uma negociação pacífica do conflito em torno do Irã, porque é Lula quem conduziu essas negociações, o que fortaleceria ainda mais sua imagem. Enquanto que um eventual fracasso, mesmo que levasse a um novo conflito bélico de proporções, contanto que pudesse ser explorado internamente em termos eleitorais, favoreceria a oposição, nos seus mesquinhos e desesperados cálculos eleitorais.
Não importa o destino do Oriente Médio, do mundo, contanto que Serra possa ter alguma esperança de se eleger. Eleger um candidato que disse que o Mercosul é uma “farsa”, que o Brasil fez “uma trapalhada” em Honduras, que o ingresso da Venezuela no Mercosul era “uma insensatez”, que “não convidaria o primeiro ministro do Irã para vir ao Brasil, nem iria ao Irã”.
Dane-se a paz no mundo, contanto que a candidata de Lula não siga sua curva ascendente, que a faz superar a seu candidato na pesquisa do Vox Populi. Dane-se a paz no Oriente Médio, contanto que se possa consignar alguma “gafe” de Lula na viagem ao Irã. Dane-se o mundo, contanto que os interesses da direita brasileira sejam preservados.
Essa visão estreita, provinciana, se choca abertamente com a importância do acordo conseguido e com suas repercussões internacionais. Ainda mais porque contradiz o ceticismo do governo norteamericano – Hillary mencionou o tamanho da montanha que Lula teria que escalar para conseguir o acordo e dos porta-vozes da militarização dos conflitos em escala mundial. Onde outros fracassaram ou apostaram que nem valia a pena buscar negociações, o Brasil triunfou.
O Brasil soube buscar aliados – Rússia, China, Turquia, França – para abrir um espaço de negociação política, que se revelou possível e correto. A posição brasileira de que os EUA – e outras potências – possuindo imensos arsenais nucleares, não tinham moral para buscar acordos que limitem a disseminação de armamento nuclear, abre caminho para outras iniciativas de paz.
Em Israel e na Palestina, Lula deixou claro que os EUA não são o bom negociador para a paz na região, tanto porque são parte integrante do conflito, ao definir a Israel como seu aliado estratégico, como porque fracassou ao longo do tempo, sem que se tenha obtido a concretização do acordo da ONU de garantir a existência de um Estado palestino nas mesmas condições do Estado israelense.
Faltava que a candidatura de Lula fosse lançada ao Prêmio Nobel da Paz, para que uma imensa grita se estendesse por aqui, para que esse merecido reconhecimento internacional não projetasse de vez o Brasil como um novo sujeito em negociações de paz, projetando-nos como país que contribui efetivamente para sairmos de um mundo unipolar, sob hegemonia imperial de uma única super potência e para a criação de um mundo multipolar.
Devemos sentir-nos orgulhosos da diplomacia brasileira e da política internacional do Brasil, da atuação de Lula e de Celso Amorim. Devemos lutar ainda mais para consolidar essas diretrizes da política exterior brasileira e contribuir para que ela não apenas prossiga, mas se estenda e ajude ainda mais a construir um mundo em que os conflitos não sejam mais objeto de intervenções militares, mas de negociações políticas, pacíficas, que respeitem o direito de todos, especialmente dos que, até aqui, foram oprimidos pelas potências que concentram os maiores arsenais do mundo e pretendem perpetuar seu domínio sobre uma ordem mundial injusta.

Postado por Emir Sader às 04:03

quinta-feira, 6 de maio de 2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Partes do LIVRO DO DESASSOSSEGO que utilizarei no meu TCC

Fernando Pessoa e a Religião

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber por quê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, aquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser; podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que a espécie humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comumente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

Fernando Pessoa e o mistério da vida

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cômodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Fernando Pessoa e a solidão de todos os homens do mundo

Escrevo, triste, no quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se, a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino quotidiano ao sonho inútil, à esperança sem vestígios.

Fernando Pessoa e a Literatura

A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.

Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.

Fernando Pessoa e a tragédia materna e paterna

Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibilidade, vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. Sou postiço. Acordei sempre contra seios outros, acalentado por desvio.

Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena?

Sou todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal.

Talvez que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental. Quem, em criança, me apertou contra a cara não me podia apertar contra o coração. Essa estava longe, num jazigo — essa que me pertenceria, se o Destino houvesse querido que me pertencesse.

Disseram-me, mais tarde, que minha mãe era bonita, e dizem que, quando mo disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma, desentendido de emoções, e o falar ainda não era uma notícia de outras páginas difíceis de imaginar.

Meu pai, que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca o conheci. Não sei ainda porque é que vivia longe. Nunca me importei de o saber. Lembro-me da notícia da sua morte como de uma grande seriedade às primeiras refeições depois de se saber. Olhavam, lembro-me, de vez em quando para mim. E eu olhava de troco, entendendo estupidamente. Depois comia com mais regra, pois talvez, sem eu ver, continuassem a olhar-me.

Fernando Pessoa e as multidões

Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos vêem-se desatentamente, e construo em mim essa imagem áquea [sic] que, melhor que qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.

Ao escrever esta última frase, que para mim exatamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das "Errata" umas "Não- Errata", e dizer: a frase "a este incerto movimentos", na página tal, é assim mesmo, com as vozes adjetivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.

À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros elétricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. À roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos.

E são sombras, sombras...

Vista de perto, toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luiz de Sousa escrevia “o comum com singularidade". Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim parar aqui sem razão, como tudo na vida.

Fernando Pessoa e a vida em sonho

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo — mas tenho pena de o não fazer... e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.

Fernando Pessoa e o tempo

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje – tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara – que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de páginas e a história continua, mas não o texto.

Fernando Pessoa e os problemas

Todos os problemas são insolúveis. A essência de haver um problema é não haver uma solução. Procurar um fato significa não haver um fato. Pensar é não saber existir.

Fernando Pessoa e o ato de escrever

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.

Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa e o espetáculo do mundo

Quanto mais contemplo o espetáculo do mundo, e o fluxo e refluxo da mutação das coisas, mais profundamente me compenetro da ficção ingênita de tudo, do prestígio falso da pompa de todas as realidades. E nesta contemplação, que a todos, que refletem, uma ou outra vez terá sucedido, a marcha multicolor dos costumes e das modas, o caminho complexo dos progressos e das civilizações, a confusão grandiosa dos impérios e das culturas — tudo isso me aparece como um mito e uma ficção, sonhado entre sombras e esquecimentos. Mas não sei se a definição suprema de todos esses propósitos mortos, até quando conseguidos, deva estar na abdicação extática do Buda, que, ao compreender a vacuidade das coisas, se ergueu do seu êxtase dizendo ' 'Já sei tudo'', ou na indiferença demasiado experiente do imperador Severo: "omnia fui, nihil expedit — fui tudo, nada vale a pena”.

Fernando Pessoa e a sua busca ou a sua mania de perfeição

Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação da vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha covardia.

Fernando Pessoa e as metáforas

Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Há

frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Passos de parágrafos meus há que me arrefecem de pavor, tão nitidamente gente eu os sinto, tão recortados de encontro aos muros do meu quarto, na noite, na sombra, (...) Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo — é impossível ocultar-lhes o som — é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente.

Fernando Pessoa e a monotonia da vida

Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade — a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma — pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua.

O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir — não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer — aldeia ou ermo — que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.

Fernando Pessoa e os sonhos

O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim, se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras mnão tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.

Como um espetáculo na bruma (quadrado do organizador)

Aprendi nos sonhos a coroar de imagens as frontes (quadrado do organizador) do quotidiano, a dizer o comum com estranheza, o simples com derivação, a dourar, com um sol de artifício, os recantos e os móveis mortos e [a] dar música, como para me embalar, quando as escrevo, às frases fluidas da minha fixação.

Fernando Pessoa se compara a objetos modernos

Sou uma placa fotográfica prolixamente impressionável. Todos os detalhes se me gravam desproporcionadamente [a] haver um todo. Só me ocupa de mim. O mundo exterior é me sempre evidentemente sensação. Nunca me esqueço de que sinto.

Fernando Pessoa e o tédio

O tédio... Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio... É como a possessão por um demônio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma. Dizem que os bruxos, ou os pequenos magos, conseguem, fazendo de nós imagens, e a elas inflingindo maus tratos, que esses maus tratos, por uma transferência astral, se reflitam em nós. O tédio surge-me, na sensação transposta desta imagem, como o reflexo maligno de bruxedos de um demônio das fadas, exercidas, não sobre uma imagem minha, senão sobre a sua sombra. É na sombra íntima de mim, no exterior do interior da minha alma, que se colam papéis ou se espetam alfinetes. Sou como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu.

O tédio... Trabalho bastante. Cumpro o que os moralistas da ação chamariam o meu dever social. Cumpro esse dever, ou essa sorte, sem grande esforço nem notável desinteligência. Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras vezes, no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim.

Fernando Pessoa e o fracasso

Tenho assistido, incógnito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao soçobro lento de tudo quanto quis ser. Posso dizer, com aquela verdade que não precisa de flores para se saber que está morta, que não há coisa que eu tenha querido, ou em que tenha posto, um momento que fosse, o sonho só desse momento, que se me não tenha desfeito debaixo das janelas como pó parecendo pedra caído de um vaso de andar alto. Parece, até, que o Destino tem sempre procurado, primeiro, fazer-me amar ou querer aquilo que ele mesmo tinha disposto para que no dia seguinte eu visse que não tinha ou teria.

Espectador irônico de mim mesmo, nunca, porém, desanimei de assistir à vida. E, desde que sei, hoje, por antecipação de cada vaga esperança que ela há-de ser desiludida, sofro o gozo especial de gozar já a desilusão com a esperança, como um amargo com doce que torna o doce doce contra o amargo. Sou um estratégico sombrio, que, tendo perdido todas as batalhas, traça já, no papel dos seus planos, gozando-lhe o esquema, os pormenores da sua retirada fatal, na véspera de cada sua nova batalha.

Fernando Pessoa e as mudanças em sua personalidade

Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.

Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio.

Fernando Pessoa e as palavras

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie — nem sequer mental ou de sonho —, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Fernando Pessoa e a arte

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas têm cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objetivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir.

Fernando Pessoa e o absurdo

Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há um que (...)

Fernando Pessoa e a criação de várias personalidades

Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.

Para criar, destrui-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças.

Fernando Pessoa e o pensamento sensível

O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à ação, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a ação — a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a ação é, por sua natureza, a projeção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projeção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.

Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Ouem simpatiza pára. O homem de ação considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte — ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

Considerações sobre a realidade atual por Fernando Pessoa

Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.

Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras regiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.

Nós perdemos essa, e às outras também.

Ficamos, pois, cada um entregue a si-próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a

um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a idéia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.

Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo- nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.

Fernando Pessoa e a ação

— Absolutamente... O que tem de antipático nas gramáticas (já reparou na deliciosa impossibilidade [?] de estarmos falando neste assunto?) — o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos... São as palavras que dão sentido às frases... Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos... Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou — cada vez que tenho uma conversa um pouco longa suicido um amigo — tinha tencionado dedicar toda a sua vida a destruir os verbos...

Fernando Pessoa e a Apoteose do absurdo

APOTEOSE DO ABSURDO

Absurdemos a vida, de leste a oeste.

Fernando Pessoa e novas considerações sobre o tédio

O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o cansaço de se ter vivido; o tédio é, deveras, a sensação carnal da vacuidade prolixa das coisas. Mas

o tédio é, mais do que isto, o aborrecimento de outros mundos, quer existam quer não; o mal-estar de ter que viver, ainda que outro, ainda que de outro modo, ainda que noutro mundo; o cansaço, não só de ontem e de hoje, mas de amanhã também, (e) da eternidade, se a houver, (e) do nada, se é ele que é a eternidade. Nem é só a vacuidade das coisas e dos seres que dói na alma quando ela está em tédio: é também a vacuidade de outra coisa qualquer, que não as coisas e os seres, a vacuidade da própria alma que sente o vácuo, que se sente vácuo, e que nele de si se enoja e se repudia.

O tédio é a sensação física do caos, e de que o caos é tudo. O aborrecido, o mal-estante, o cansado sentem-se presos numa cela estreita. O desgostoso da estreiteza da vida sente-se algemado numa cela grande. Mas o que tem tédio sente-se preso em liberdade frusta numa cela infinita. Sobre o que se aborrece, ou tem mal-estar, ou fadiga, podem desabar os muros da cela, e soterrá-lo. Ao que se desgosta da pequenez do mundo, podem cair as algemas, e ele fugir; ou doer de as não poder tirar, e ele, com sentir a dor, reviver-se sem desgosto. Mas os muros da cela infinita não nos podem soterrar, porque não existem; nem nos podem sequer fazer viver pela dor as algemas que ninguém nos pôs.

Fernando Pessoa e seu sentimento de inadequação social

Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui sempre, para todos, um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora. Não digo que o fui, uma só vez sequer, de caso pensado. Mas fui-o sempre por uma atitude espontânea da média dos temperamentos alheios.

Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos, creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por hóspede é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho e a falta de afeição merecida pelo intruso.

Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa intrínseca ao meu próprio temperamento. Sou porventura de uma frieza comunicativa, que involuntariamente obrigo os outros a refletirem o meu modo de pouco sentir.

Fernando Pessoa e as notícias dos jornais

A leitura dos jornais, sempre penosa do ponto de ver estético, é-o freqüentemente também do moral, ainda para quem tenha poucas preocupações morais.

As guerras e as revoluções — há sempre uma ou outra em curso — chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma; é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil. Todos os idéias e todas as ambições são um desvario de comadres homens. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo?, Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma — variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de dez mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca (...) — que pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há paz do lado de lá dos montes.

Fernando Pessoa e seu resumo do que é moderno

As cousas modernas são

(1) A evolução dos espelhos;

(2) Os guarda-fatos.

Passamos a ser criaturas vestidas, de corpo e alma.

E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passamos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passamos — homens, corpos — à categoria de animais vestidos.

Não é só o fato de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação desse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quase nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, através de uma razão sensível, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.

Fernando Pessoa e sua descrença na arte de escrever

O próprio escrever perdeu a doçura para mim. Banalizou-se tanto, não só o acto de dar expressão a emoções como o de requintar frases, que escrevo como quem come ou bebe, com mais ou menos atenção, mas meio alheado e desinteressado, meio atento, e sem entusiasmo ou fulgor.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

As duas primeiras partes do meu trabalho sobre Fernando Pessoa. Estou sentindo tanta falta de conversar com a professora Fabrícia!!!

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Instituto Superior Professor Paulo Martins

Ângela Maria Campos Michelini

Livro do Desassossego de Bernardo Soares – uma visão literária sobre a vida moderna.

Sobradinho, DF

2010

Introdução

O objetivo deste texto é analisar a obra “O Livro do Desassossego” procurando encontrar em suas páginas referências que evidenciem a influência dos problemas da época em que ele foi escrito nas diversas idéias registradas pelo autor. Sendo um texto elaborado entre os anos de 1914 a 1935, enfim, um texto com características essencialmente modernas, procurar-se-á encontrar ligação entre o estilo fragmentado, a incorporação do cotidiano, as inovações técnicas, as enumerações caóticas, as descrições de uma vida angustiada, dilacerada, depressiva e desassossegada e os acontecimentos que convulsionavam a realidade dos europeus naquele período de tempo.

Para se alcançar uma boa compreensão deste texto são necessários alguns dados sobre o contexto histórico e literário em que o mesmo foi desenvolvido, razão pela qual se fará um breve retrospecto da situação política, social e literária em que os autores modernistas se situavam.

O modernismo começou no início de século XX. Havia, naquele momento, um sentimento de insatisfação nos jovens artistas com a arte como ela se apresentava. Os velhos modelos dos movimentos artísticos anteriores, tais como o Romantismo, o Realismo e o Parnasianismo já apresentavam sinais de falta de caminhos para a construção de algo novo e os artistas se ressentiam da dificuldade de criar nos parâmetros da arte tradicional. Em contrapartida, o mundo vivia um momento de contínua transformação. Em todas as áreas do conhecimento humano, as novidades ocupavam o lugar do tradicionalismo: na política, velhas monarquias caiam e davam lugar a regimes modernos, na indústria, o artesanato cedia espaço às grandes fábricas, na medicina, o prático e o farmacêutico transformava-se no médico, na sociedade uma nova classe social, a burguesia, ocupava o espaço da aristocracia decadente, a filosofia renovava-se com as idéias de Nietzsche, Marx, Goethe, Kant e Schopenhauer, surgia a psicologia com os estudos de Freud, a vida do ser humano passava por transformações radicais fomentadas por uma nova ordem social que se estabelecia na esteira do progresso.

Neste contexto o mundo presencia o aparecimento, na Europa, de vários movimentos que antecedem e originam o Modernismo, principalmente na Literatura, são as Vanguardas Européias: o Cubismo de Picasso e Miró, o Futurismo de Marinetti, o Dadaísmo de Tristan Tzara, Hugo Ball e Hans Arp e o Surrealismo de André Breton. A maior característica destas vanguardas foi seu caráter agressivo, experimental, demolidor e inovador. O principal objetivo destes movimentos artísticos era o combate ao racionalismo e ao objetivismo das teorias científicas do Realismo, do Naturalismo e do Parnasianismo. As vanguardas pregavam o irracionalismo e objetivavam uma análise mais subjetiva do ser humano, em que o que importava ser analisado era o íntimo das criaturas.

Várias serão as características do Modernismo, este movimento poderoso e que atingiu diversos segmentos da arte do século XX: em primeiro lugar é interessante destacar a atitude de irreverência dos artistas deste período com os padrões estabelecidos; quanto à arte poética, assiste-se a implantação do verso livre, sem rima e sem estrofes pré-estabelecidas; percebe-se um movimento pleno de reação contra o que passou, contra o clássico nas artes, contra a arte sem movimento; assiste-se a implantação de uma linguagem mais hermética, em que muito mais se diz pela sugestão do que pela clareza absoluta; evidencia-se a troca da comunicação das idéias através da forma elaborada pela forma direta, pela linguagem do dia-a-dia; em todas as construções literárias deste período percebem-se várias inovações técnicas na forma de escrever; encontra-se cada vez mais o cotidiano como enfoque de vários artistas e literatos; a linearidade do tempo dá lugar a uma enumeração caótica; nos textos literários encontra-se cada vez mais o uso da descrição do fluxo da consciência.

O Modernismo afirma-se não apenas como um produto de uma evolução estética, mas também como um novo estado de espírito da humanidade. Evidencia-se o fato de que o Modernismo transcende apenas uma influência nos processos criativos, ele se apresenta como a resposta da sociedade através de seus artistas às grandes mudanças ocorridas na vida de todos os seres humanos. O antigo foi inexoravelmente posto de lado, vive-se a modernidade, respira-se o novo e como resultado de tantas mudanças surge forte e complexa esta nova realidade artística.

O primeiro grupo modernista em atividade em Portugal foi composto por Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor, jovens que apesar de portugueses, foram influenciados pela cultura européia: o escritor Fernando Pessoa havia vivido um pouco de sua infância e toda a sua juventude na África do Sul, sob influência da cultura inglesa, Mário de Sá Carneiro passara os anos de 1913 a 1916 em Paris, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor traziam de Paris as novidades que aconteciam na Literatura e no Futurismo de Marinetti. À união destes jovens e à soma destas influências fizeram aparecer em Portugal uma arte cosmopolita, que exalava as mudanças que ocorriam por todo mundo civilizado.

No ano de 1915, outro grupo de jovens, entre os quais estavam novamente Fernando Pessoa, Augusto de Santa-Rita Pintor, Almada Negreiros e Mário de Sá Carneiro, além de Raul Leal, Luís de Montalvor, Rui Coelho, Tomás de Almeida, Guisado, Armando Cortes-Rodrigues e Ronald de Carvalho fundam uma revista que servirá “de porta-voz e concretização de seus ideais estéticos, em consonância com o que vai no resto da Europa” (MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa” 33ª Ed. São Paulo. Ed. Cultrix p.239), o semanário Orpheu, no qual os Literatos “põem-se a criar uma poesia alucinada, chocante, irritante, irreverente, com o fito de provocar o burguês, símbolo acabado da estagnação em que se encontra a cultura portuguesa.” (MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa” 33ª Ed. São Paulo. Ed. Cultrix p.239).

Estas foram algumas das influências marcantes ocorridas na vida do poeta e escritor Fernando Pessoa, que deflagra um processo peculiar na sua produção e na sua arte, o que leva o crítico Massaud Moisés a afirmar:

“Fernando Pessoa é dos casos mais complexos e estranhos, senão único dentro da Literatura Portuguesa, tão fortemente perturbador que só o futuro virá a compreendê-lo e julgá-lo como merece. Por ora, mal decorridos cinqüenta anos de sua morte, é ainda muito cedo para aquilatar-lhe a importância, o significado da obra que escreveu e a influência exercida enquanto viveu e depois de morto. Tudo, portanto, que se disser hoje como análise e julgamento de sua poesia, não passam duma tentativa provisória no sentido de compreender uma insólita personalidade literária e uma obra de carregada e densa problemática.” (MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa 33. Ed. São Paulo. Ed. Cultrix. P. 241)

Ao se estudar o fenômeno Fernando Pessoa, a primeira peculiaridade do poeta que a todos chama a atenção é a diversidade. A obra pessoana é uma obra diversa, e por qualquer sentido em que se encaminhe este estudo, o resultado sempre despertará em seus estudiosos a admiração pela forma como o autor percorreu os meandros da poesia e mesmo os meandros da prosa, que inegavelmente poderá ser acertadamente definida como prosa-poética. Não há apenas uma verdade em Fernando Pessoa. Se em um primeiro momento há uma tese defendida, logo após o autor propõe nova idéia que se apresenta como complemento da idéia anterior e em um determinado momento transforma-se em uma antítese do que foi dito anteriormente. Fenômeno, aliás, que não deve surpreender e que também não desvaloriza ambas as afirmações. Aos leitores pessoanos, é necessária a compreensão de que o poeta era o fruto de uma era também peculiar de Portugal e do mundo, e que, mesmo tendo assimilado todo o passado lírico de seu povo, também captou a forma inquietante como a humanidade enfrentava as mudanças ocorridas nos primeiros anos do século XX. Através de sua sensibilidade, captou de forma dramática a certeza de que aqueles anos seriam marcados por uma profunda e dolorosa crise, tanto de valores como cultural para o povo europeu. Aos que almejam a compreensão do universo pessoano, é necessário a observação do contexto português e da realidade mundial, pois sua obra se constrói além dos limites poéticos, e deságua em cores brilhantes que pintam um painel da realidade da Europa no período pré e pós Primeira Guerra Mundial.

Mas para atingir esta diversidade, para poder assimilar tal complexidade humana, para apreender tantas vivências de certa maneira tão contraditórias, Fernando Pessoa precisa ser todos: todos que existiram, todos que existem e todos que existirão. Era necessária a compreensão da humanidade, uma compreensão que apenas pode ser conseguida ao se incorporar tantas personalidades, tantos “eus”, tantos destinos, tantos desejos, tantas lutas, tantos resultados, e Fernando Pessoa consente em tal divisão, como afirma pela voz de Álvaro de Campos: “Multipliquei-me, para me sentir, / Para me sentir, precisei sentir tudo, / Transbordei-me, não fiz senão extravasar-me”.

E nascem Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, três poetas completos, diversos nas formas de escrever, diversos nas peculiaridades, diversos nas identidades, mas habitando nosso poeta, que também ele ousa desfiar suas idéias em poesia. Deste desdobramento surge um preço, e Pessoa paga-o: o preço da desintegração, da despersonalização, do fim de sua unidade.

Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos são personagens livres, autônomos em relação a Fernando Pessoa, o primeiro, médico de profissão, monárquico, de educação clássica e latinista, adepto do Sensacionismo, estoicista e epicurista, poeta horaciano e helenista; o segundo, mestre dos heterônimos, nasceu em Lisboa, mas viveu grande parte de sua vida numa quinta do Ribatejo, sua educação não passou do curso primário, antimetafísico, poeta das sensações, da natureza, de atitude antimistica e pagã; e o terceiro, engenheiro naval de profissão, ligado aos movimentos modernistas como o Futurismo e o Sensacionismo, é o poeta que escreve as sensações da energia e do movimento bem como as sensações de sentir tudo de todas as maneiras.

Diante desta novidade na poesia européia, novamente Fernando Pessoa avança no tempo e apresenta aos seus leitores a modernidade, nada mais é algo definido, realizado, decidido, tudo está em mutação. O tempo avança não mais de forma linear, mas em grandes saltos, recuos, negações, o poeta se doa e se nega ao mesmo tempo em que absorve as emoções. Há uma viagem a ser feita e se a impossibilidade se apresenta para alguns, sempre outros ocuparão os espaços vagos na medida em que nada deve ficar sem ser dito, sentido, experimentado, definido e progressivamente colocado em versos que resumem toda a dolorosa experiência de um povo que entende que “Navegar é preciso, viver não é preciso...” e que Pessoa transforma em “Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”.

Ao heterônimo Alberto Caeiro a poesia se apresenta “em verso prosaicamente livre contra o transcendentalismo saudosista, evidenciando que “o único sentido oculto das coisas / É elas não terem sentido oculto nenhum”. (SARAIVA, António José. História da Literatura Portuguesa 17ª Ed. Porto. Bloco Gráfico Ltda. 2005. p. 997) .

Ao heterônimo Ricardo Reis a poesia se apresenta “em estilo que, pelas formas estróficas e loci communes clássicos pode parecer neo-arcádico (embora apresentando por vezes densidade poética revivificadora de modelos horacianos). (SARAIVA, António José. História da Literatura Portuguesa 17ª Ed. Porto. Bloco Gráfico Ltda. 2005. p. 998). E o poeta escreve: “Assim façamos nossa vida um dia, / Inscientes, Lídia, voluntariamente / Que há noites antes e após / O pouco que duramos.” (PESSOA, Fernando, Odes de Ricardo Reis, 5ª Ed. São Paulo, Cia. Brasileira de Impressão e Propaganda, 1974. p. 259)

Ao heterônimo Álvaro de Campos a poesia se apresenta “em odes em verso livre entusiástico, à maneira de Walt Whitman, a sabedoria futurista da sem razão, da energia humana, da vida jogada por aposta; ou então o anseio, mais whitmaniano ou sensacionista, de “sentir tudo de todas as maneiras”. (SARAIVA, António José. História da Literatura Portuguesa 17ª Ed. Porto. Bloco Gráfico Ltda. 2005. p. 998). O que fica evidente no poema “Na Véspera”: “Na véspera de não partir nunca / Ao menos não há que arrumar as malas / Nem fazer planos de papel”. (PESSOA, Fernando, Odes de Ricardo Reis, 5ª Ed. São Paulo, Cia. Brasileira de Impressão e Propaganda, 1974. p. 393)

Outros heterônimos e semi-heterônimos devem ainda aparecer quando da divulgação total de seus trabalhos, que ora aguardam a análise de estudiosos, guardados na Biblioteca Nacional de Lisboa, por ora este texto se deterá nestas duas novas criações: Vicente Guedes e Bernardo Soares, os responsáveis pela escrita do “Livro do Desassossego”.

Quanto a Vicente Guedes, até hoje pouco se sabe além de sua participação na escrita de vários textos em prosa que compõe a mais nova charada pessoana: O Livro do Desassossego. É dele o fragmento “Na floresta do Alheamento”, este publicado no volume IV da revista A Águia, de 1913 e “Marcha fúnebre para o rei Luís Segundo da Baviera”. Consta também seu nome como autor de mais alguns fragmentos, porém, na opinião do poeta, escritor e crítico literário Jorge de Sena, a fase do “Livro do Desassossego” pertencente a Guedes é uma fase “muito simbolista e esteticista”, concebida anteriormente à “descoberta da heteronímia profunda de que a grandeza de Pessoa se faria” (antes, pois, de 1914), marcadas por fragmentos que, à exceção de “Na floresta do Alheamento” e “Marcha fúnebre para o rei Luís Segundo da Baviera” são apenas trechos inacabados ou nem sequer saídos de um embrionário começo, escritos de 1912 a 1914, com recorrências até 1917. (SENA, 1982. p. 236).

Mas inegavelmente, Vicente Guedes deve ser estudado como um dos autores do Livro do Desassossego, até pela atenção que Fernando Pessoa dedicou à sua atuação como autor, no “Prefácio” elaborado para a primeira edição do “Livro do Desassossego” de autoria de Fernando Pessoa:

“criou definitivamente a aristocracia interior: aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um aristocrata completo (LD, v. 1, p. 19). Isolou-se do mundo num apartamento de 4º andar da Baixa lisboeta, morada que mobiliou com requinte decadente – “cuidara especialmente das cadeiras – de braços, fundas, moles -, dos reposteiros e dos tapetes (LD, v. 1, p. 17-8) -, requinte adequado “para manter a dignidade do tédio” segundo dizia (LD, v. 1, p. 18).

Já sobre Bernardo Soares, o autor que dá prosseguimento à construção deste livro póstumo, Fernando Pessoa foi mais específico e o descreveu de maneira detalhada, como um conhecido com o qual teve contato nos restaurantes de Lisboa. Bernardo Soares era um guarda-livros e abordou Fernando Pessoa quando este jantava, conversaram e assim se estabeleceu uma camaradagem entre os dois:

“Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava – parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.” (LD, p. 39)

Fernando Pessoa continua uma promessa, mesmo após 75 anos de seu falecimento. Sua presença entre nós se faz também através de seu legado, pois deixou-nos vários escritos inéditos, os quais estão sob a responsabilidade do governo português na Biblioteca Nacional de Lisboa. Vários estudiosos pessoanos dedicam-se ainda agora à análise deste material, buscando encontrar a melhor maneira de apresentar à humanidade as novas palavras do gênio português. E entre eles está o Livro do Desassossego, obra póstuma encontrada entre seus papéis, anos depois de sua morte, e que foi trazida ao conhecimento do grande público através da organização de vários interessados em difundir a maestria do famoso escritor e poeta português.

A história do Livro do Desassossego

Quando Fernando Pessoa faleceu, em 1935, o mundo o conhecia apenas através de poucas publicações, conforme enumera Massaud Moisés, em seu livro “A Literatura Portuguesa”:

“Em vida, além de Mensagem (1934), Fernando Pessoa apenas publicou versos ingleses (Antinous, 1918; 35 Sonnets, 1918; Inscriptions, 1920), reunidos nos English Poems, I, II e III (1921) e alguma prosa: Aviso por causa da Moral (1923) e Interregno-Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal (1928). A maior parte de sua produção estampou-se em jornais e revistas ou manteve-se inédita”. (MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa 33. Ed. São Paulo. Ed. Cultrix. P. 247)

Ao ser examinado o espólio do escritor, todos se depararam com vasto material, entre o qual estavam dois envelopes pardos subscritos como “Livro do Desassossego”. Inicia-se aí uma nova empreitada para dar a conhecer ao mundo a continuação do trabalho de Fernando Pessoa. Sobre este material se debruçam uma infinidade de estudiosos que lutam para organizar o mais próximo possível de um ideal de perfeição os textos legados por um dos maiores gênios da literatura. O primeiro a se ocupar com os famosos manuscritos com a finalidade de publicá-los foi o poeta, escritor e crítico literário Jorge de Sena que escreveu um texto considerado como leitura obrigatória para os que se interessam pelo escritor português. Entre os outros que se ocuparam deste tema, os pioneiros do estudo do Livro do Desassossego, encontram-se João Gaspar Simões, Luís de Montalvor, Georg Rudof Lind, Jacinto do Prado Coelho, Teresa Rita Lopes, Maria Aliete Galhoz, Tereza Sobral Cunha, Ivo Castro, Cleonice Berardinelli, José Clécio Basílio Quesado, Luciana Stegagno Picchi, Antonio Quadros, Leyla Perrone-Moisés e Richard Zenith.

Ao se pesquisar o resultado das incursões destes estudiosos pelo material encontrado no espólio de Fernando Pessoa encontra-se vários resultados, melhor dizendo vários “Livros do Desassossego, o que leva à constatação do quão pertinente foi o título escolhido pelo autor, pois mesmo depois de tantos estudos por pessoas de tão comprovada competência técnica e literária, fica clara a perplexidade de seus estudiosos sobre a forma como Pessoa elaborou seus escritos de forma a o tornar algo tão moderno que encarna a própria idéia de algo que se transforma constantemente a ponto de interagir intimamente com a própria idéia de liquidez de nossa era.

Chama a atenção, também, a forma final encontrada por vários destes estudiosos para a publicação da obra de Fernando Pessoa/Vicente Guedes/Bernardo Soares, para alguns, o material encontrado deveria ser organizado observando-se as datas dos textos, para outros a forma ideal seria justamente a inobservância destas datas, já para outros a melhor forma de apresentação seria através de “manchas temáticas” e mesmo outros propõem que se faça uma avaliação dos textos encontrados e apenas os considerados terminados e datados devam constar do resultado final. Independentemente desta discussão, percebe-se o quanto o texto de Fernando Pessoa/Vicente Guedes/Bernardo Soares consegue lançar seus estudiosos em um estado constante de perplexidade e dúvidas, enfim, em um estado de desassossego...

E ao se comparar algumas das edições existentes do Livro do Desassossego em língua portuguesa, percebe-se que ao lado da beleza com que o autor brindou seus leitores postumamente, também legou a quem se interessar por seu trabalho a chance de usufruir de um texto quase mágico, que se reinventa a cada leitura, que possibilita a seus leitores a liberdade total no ato de lê-los, uma obra no dizer de Leyla Perrone-Moisés “sempre em movimento e mutação, que sua forma verdadeira e definitiva será sempre uma nostalgia, um anseio de unidade e coerência como aquele que o indivíduo Pessoa alentava, sabendo-o irrealizável”.